Michael Jackson Não Morreu

26/06/2009
A leveza do movimento, a alegria do cantar: isso é vida!

Nova York está de luto. Porém, Michael Jackson não morreu. Elvis também não. Pelé é eterno, e o nome do Rei do Baião arde flamejante nas labaredas incandescente em homenagem a São João. Um ídolo não morre, eterniza-se na memória dos povos. O Rei do Pop moderno, aos 50 anos de idade, teve parada cardíaca, e isso lhe ceifou a vida biológica, mas não a vida mitológica. Mito que é mito não morre. A morte insinua ser apenas numa tentativa de desconstituição do ícone cultural. Porém vã. O ex-integrante do Jackson Five, com a ajuda de uma máquina publicitária capaz de transformar pau em pedra, pertence hoje à galeria dos ídolos pop imortalizados desde o século 20, como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Marley e Elvis Presley. Todos são figuras emblemáticas da moderna sociedade de consumo. Literalmente falando, nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não. Mais que a morte do homem, o mundo lamenta mesmo é sua orfandade mitológica. A coisificação engendrada na consciência do homem parido e criado nas megalópolis de cimento e aço tende a substituir o ser real do artista.

Quando ele ainda era gente, o meu irmão, Miguel Amaral, hoje médico e cronner da Banda Los Dinos, o imitava, cantando o sucesso Ben, com agudos e falsetes que a difícil interpretação requeria. O menino pobre e negro transfigurou-se num personagem branco e rico. O exímio dançarino fez-se mito para si mesmo, antes que a mídia o fizesse para os Estados Unidos e para o mundo. É tal a magnitude do fenômeno que as lágrimas vertidas de todas as latitudes da terra são em pêsames ao mito que consumiu e abduziu o Michael Jackson de carne e osso, transportando-o literalmente para a Terra do Nunca, sua Neverland.

Daí Porque, em prosa, diríamos: o mito é rito, fato, sonho, fantasia a mascarar o ego no desbunde do carnaval existencialista; na overdose sensitiva da subjetividade dança o mito, na ciranda da semiose tem seu berço semântico; na fragilidade do homem frente ao vendaval de significações, saboreia seu fast-food predileto, sua praia é a inquietude da consciência. O mito é sombra sorrateira forjada na alma para dar sentido ao suspiro cotidiano de cada ser vivente. O mito é parente próximo, distante, é primo, pai, mãe, avô, dança do arquétipo ancestral, emergente da caverna paleolítica para a contemporaneidade, da necrorealidade dos tempos de matrix. O mito, anador das angústias humanas; mito, coador da borra do meu café mental. Nossos sonhos estão nele, nossa libido está nele, nele estão nossas esperanças, nosso vazio nele encontra tapume e argamassa.

O mito é misto quente, devaneio tuti-frutti do eu boquiaberto frente ao mundo que o indaga e surpreende; com ele nos embriagamos no bar da esquina do tempo; a projeção da consciência para o mar aberto das versões concebe o mito; metade do mito sou eu, metade é ele, outra banda do mito somos nós, o meu e o teu não-eu soltos no ar como bolha de sabão encantando olhos incautos. O mito é pleura, é soda, é moda, foto três por quatro numa sala de espelhos a refletir as mil facetas da alegria, da angústia e carência humanas, planando em asas de fênix massificada.

Por isso, por ser um rito, um mito, fito e capto, e tenho dito: Michael Jackson não morreu.

Adeus ao elegante instrumentista da kizomba Guaporé!

19/04/2011

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Genésio, o chorão do Villas Bar

Na madrugada de ontem (11/04), calou-se para sempre o cavaquinho de Genésio, o chorão do Villas Bar, parceiro de Bubu Johnson, o Noite Ilustrada de Rondônia; de Nicodemus, mestre em violão de sete cordas, do grande violeiro Norman Johnson Júnior e do baterista Júnior Lopes, no espetáculo Prisma Luminoso. Com esses seletos artistas Genésio viveu intensos momentos de notoriedade, em noites memoráveis vivenciadas no já extinto Villas Bar, localizado na Avenida Carlos Gomes, no centro da cidade.

Genésio era um daqueles migrantes que os nativos deste chão se orgulham de receber nestas plagas karipunas: aquele que vem para efetivamente somar, multiplicar e dividir arte, conhecimento, profissionalismo, talento e poesia. Como um apátrida cigano em perene peregrinação pelos quatro quadrantes do território brasileiro, Genésio era um pássaro arigó que em revoada circense pela amazônia ocidental se encantou com os beiradões rondonienses e por aqui fincou raízes, fez carreira e construiu sua eterna morada. Corria o ano de 1986 quando ele, tocando em tenda de circo, aqui em Porto Velho, se passou para a banda Cobras do Forró, tomou apego pela cidade e desempenhou em seguida a função de professor de música.

Ao escolher Rondônia para viver e executar seus inúmeros concertos musicais no mais variados ambientes culturais, Genésio já trazia consigo uma invejável folha corrida de bons serviços prestados à música popular brasileira. Do Rei do Baião a Waldik Soriano, de Reginaldo Rossi a Trio Nordestino, passando por Alípio Martins, Maurício Reis, Fernando Lélis e tantos outros, muitos foram os que provaram do tempero brasileiríssimo da sua guitarra, do seu violão ou do seu sentimental, impecável e ébrio cavaquinho.

Perfeitamente ambientado aos recantos melódicos porto-velhenses, Genésio tinha trânsito livre em todas as tribos culturais, se embrenhando tanto numa pajelança de boi-bumbá do majestoso Corre Campo ou Az de Ouro quanto num desfile de escola de samba; participava com desenvoltura da roda de samba, do pagode, do chorinho chorado, da seresta demodê ou mostra livre de MPB. Todas as torrentes de paixão se harmonizavam no seu coração recheado de talento e espiritualidade musical. Dessa arte foi servo humilde, cativo e seleto. Seus pulmões existenciais tinham na música seu oxigênio predileto e irremediável. Por isso respirava acordes, quadrados, perfeitos ou dissonantes, com sétima ou com nona aumentada, como quem sorve da atmosfera a alegria de viver das doses homeopáticas do bom ar produzido pela floresta amazônica durante os dias de intenso sol. Porém, depois de percorrer em regozijo uma bela escala ascendente, iniciou, forçado pelo câncer, a dolorosa digitação da sua escala descendente até atingir o silêncio absoluto, a não-nota, pausa que embora seja fúnebre, também faz parte da notação musical na grande peça orquestral que é a vida. No céu, pela sua dignidade afro-descendente, pela soberana humildade dos virtuoses e servidão incondicional com que se entregou à arte de fazer o povo sorrir e cantar com seus quindins tônicos e ligeiros, no cavaquinho, Genésio a essa hora está sentado à direita de Valdir Azevedo.

Cuidamos mal da saúde de Genésio, a sociedade se diverte mas cuida muito mal dos seus fazedores de emoção e arte. Em regra eles vivem à míngua, se contentando com pequenas sobras do banquete bilionário servido ao redor do fazimento das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. Todavia, apesar dessa ingratidão social, a vida de Genésio entre nós se transformou em sonata da qual não podemos dizer que temos saudade porque ela ecoa todos os dias na caixa acústica de nossos espíritos como um réquiem em culto à alma do homem que encheu a cidade de luz com vagalumes que alçavam vôo de seu instrumento, o cavaquinho, executado com maestria e fineza, como conviria ao mais elegante instrumentista da kizomba Guaporé. A ele, o nosso Adeus!

Manelão sai da Banda para entrar na História

01/03/2011
  • por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Manelão, a morte e o carnaval: uma tríade que hoje chama atenção na mídia local por marcar a partida para a eternidade do maior carnavalesco da folia popular de Rondônia. Todavia, em que pese a tragédia e a dor, todos sabem que essa trindade é antiga, pois há 31 anos eles brincam juntos no mesmo bloco da existência. Dessa longa e inusitada convivência nasceu a mais famosa agremiação festiva do carnaval da região norte brasileira – a troça carnavalesca dos 100 mil brincantes.

    Inspirada na famosa Banda de Ipanema, a Banda do Vai Quem Quer veio ao mundo pelas mãos de doze correligionários etílicos que, ante a falta de criatividade e apoio dos administradores públicos aos foliões, resolveram dar a volta por cima na apatia que entediava a cidade e conceberam aquilo que hoje é mais que uma banda, é uma verdadeira confederação de blocos, uma grande nação baconiana a serpentear pelas veredas portovelhenses no sábado de carnaval. Daqueles doze apóstolos, coube a ele, Manelão, o papel de pastor daquele rebanho de ovelhas desgarradas. À Banda ele deu cara, coragem e identidade. Enfrentou fortes tempestades e uma imensa onda de negativismo quando um dos carros de som do Bloco Maria Fumaça, que acompanhava o cortejo, envolveu-se num acidente com vítimas fatais. Mas nada disso o demoveu da idéia de colocar a banda nas ruas. Manelão manteve inabalável sua crença de que era preciso superar a miopia dos administradores da coisa pública e manter a fórmula barata e popular de brincar o carnaval.

    O histórico mantenedor da Banda não era apenas um carnavalesco, já que detinha também um outro dom – o da conversa. Manelão era um grande conversador. Gostava como ninguém de uma boa prosa e adorava passar horas nessa atividade coloquial. Dizem as más línguas que ele era o maior fofoqueiro da cidade. Comentam, ainda, que todos os bastidores da chamada vida dos outros poderiam ser sabidos, escutados e comentados em torno de sua mesa de trabalho. Diz a lenda que, em tempos idos, ele e alguns colegas de farra seqüestraram um morto no necrotério do antigo Hospital São José (hoje policlínica da Polícia Militar) e passaram a noite toda zoando com o cadáver, tendo levado o de cujus até o salão principal da Maria Eunice, antigo prostíbulo situado na subesquina da rua Dom Pedro Segundo com a Tenreiro Aranha, no centro da cidade. Para outros, porém, ele não passava de um autêntico contador de causos, do naipe, por exemplo, um Cláudio Feitosa.

    A morte do Marechal da Banda na temporada dos festejos momescos não constitui uma fatalidade, é coisa de cumplicidade e amizade de longínquas calendas. Isso porque o Rei da Folia nunca temeu a senhora do destino. Tendo a alegria por credo religioso, ele firmou no coração que hoje nos priva de sua presença a plena convicção de que só há um jeito de negar a morte, que é reafirmando a vida, todos os anos, década após década, numa fantástica quizomba bárbara e popular pelas ruas da cidade, cantando, dançando, bebendo, sem medo de ser feliz. Ao escolher a vida, vivendo intensamente o princípio do prazer, Manelão também escolheu a morte, sabendo que uma é a antítese da outra na dialética da existência. E para que ela não assuste também ao povo, ele ordenou à sua filha: – que saia a banda, apesar da minha morte, para que ela não intime os brincantes do maior bloco de rua da amazônia ocidental. Para o deleite da vida, para a exaltação da alegria e autoafirmação do carnaval popular, o meu corpo fica, mas a banda sai; fica o homem, mas a fé num amanhã melhor não perecerá no coração das massas!

    E assim será: baixado o corpo à sepultura, choradas as lágrimas forjadas no vazio da dor e experimentados sentimentos de perda e lamentos pela partida do homem que reinventou a alegria nos prados rondonianos, toda a tropa da patuscada saberá fazer jus ao bem-querer do seu General, e assim marchará altiva e risonha, frenética e anárquica, dançante e indomável, bela e sedutora, despudorada e crítica, pelas ruas da caótica Porto Velho, ungida pelas graças de Momo e unida em torno de um só ideal: mostrar ao mundo que mais do nunca é preciso cantar e alegrar a cidade – como diria o poeta Vinícius de Morais. Da dimensão em que se encontrar, Manelão aplaudirá, pela primeira vez de fora, o desfile da Banda do Vai Quem Quer que criou, e sorrirá, e brindará quem sabe, e abençoará a todos, e haverá festa em seu coração cósmico, e ele descansara no eterno, satisfeito por ter pregado e vivido a paz entre os homens.

    Manelão morreu como sempre quis: no berço da alegria que ajudou a criar. Manelão partiu no tempo em que escolheu: um tempo de dança, de canto, de Banda Carijó, de esperança e celebração – o carnaval! Ao desafio de encarar a morte, angústia de quem vive, e conviver com a solidão, fim de quem ama, ele propôs um pacto: vamos estar juntos, brincarmos juntos, festejarmos juntos e cantarmos nossas marchinhas, para mostrar ao sistema e aos seus prepostos que a nossa anarquia mameluca é espiritualmente bem maior do que supõe o projeto capitalista selvagem que vem tentando engessar a pajelança tribal do povo Guaporé!

    E tendo dado seu recado e cumprido sua missão celestial na terra, Manelão saiu da Banda para entrar na História.

  • Golpe de Mestre

    19/02/2011

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Uma justa homenagem ao professor Eliézer

    De repente, apagou-se a luz e a sala foi tomada por assombrosas trevas. Algo precisava ser feito, urgentemente – e foi.

    Intuitivo e lépido, o professor Eliézer não se fez de rogado. Tendo a obscuridade por cenário e palco, entoou seu canto poético como se fosse um profeta pregando na escuridão do templo e, por um segundo, o mundo se houvesse permitido escutá-lo.

    O reverberar de sua voz inundou a sala, espalhando metáforas que se chocavam nas paredes e resvalavam nos nervos atentos da platéia. Pancadas de vento atiçaram um rio de figuras de linguagem, e o que se viu foram os efeitos especiais de perífrases, onomatopéias e fonemas entrecortando o espaço, para delírio dos corações de estudante.

    Pelos ares voaram redondilhas, rimas contundentes, frenéticas, desconcertantes, elegantes, jóias raras daquela atônita catilinária poética. Soltou-se o verbo, e com tal intensidade, que trouxe o adjetivo assinalando os barões, as armas e o poder da palavra em terras dantes lusitanas, num despertar da ilocução, do lírico, do lúdico, do lábaro que ostenta estrelado o verde-louro do povo Mamoré-tupiniquim.

    A musicalidade pediu passagem e desfilou risonha, inculta e bela, na passarela da métrica. A cadência do ritmo desfolhou um romântico buquê de notas provençais e correu para o abraço da galera, na Praça Conotativa da Apoteose. A sátira rimou geminado e até curtiu: Minha terra tem palmeiras/de açaí e babaçu/tem o grande rio Madeira/e o famoso candiru/Não permita Deus que eu morra/sem que eu volte pra lá/sem que aviste as palmeiras/e tome meu tacacá…

    Feito cavalo de umbanda, o mestre rodou a baiana e trouxe o espírito do trovador medieval, a teimosia de um viandante que insistia em não ir por ali, como se fosse um pajé, um beradeiro, um Bruce Lee. Tomada por sinalefas, antíteses, eufonia e outras esmeraldas cedidas por especial vênia aos imortais, a sala transbordou em poesia, enquanto versos decassílabos e alexandrinos vazavam pelo ladrão.

    Encantada, a estudantina era só ouvidos. Inebriada, curtiu o inédito, o pitoresco, um ar fresco reciclando a noite inusitada, batendo de cara com o novo, o ovo de Colombo, redescobrindo a vida e viajando nas asas de um épico beija-flor talhado a verso e prosa. E a alma do artista pôde, então, ser tocada, sorvida, dissecada e experimentada por dentro, auscultada em cena de explícita sensibilidade. Fez-se fim o que era meio, perto o que parecida longe, e houve um despertar do encanto onde só indiferença havia.

    A Ceron trouxe de volta a luz, o normal voltou ao normal. Uns viajaram, outros não. É uma pena. Há quem jure não ter visto nada de novo, e que a “manjada” aula de literatura começa sempre com: “O amor é fogo que arde sem que ver/é ferida que dói e não se sente…”.

    UMA SAIA VERMELHA NO PODER

    24/10/2010

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Faixa Presidencial: uma mulher subirá a rampa do Palácio do Planalto

    No dia primeiro de janeiro de 2011 uma mulher subirá a rampa do Palácio do Planalto central do Brasil e assumirá o mais alto cargo da República. Quando isso acontecer ninguém mais se atreverá a lançar sobre a dona da saia a pecha de “sapatão”, “guerrilheira” e “matadora de criançinhas’, como disse a mulher do candidato do PSDB. Tudo balela pra ludibriar a atenção dos incautos populares. Na verdade, a maioria dos que votam em Serra não são serristas autênticos, votam no “Vampiro Brasileiro” por fisiologismo, isto é, porque não tem ninguém mais à direita do tucano para merecer o voto desses conservadores. Não são todos, mas uma boa parte é constituída de reacionários travestidos de sociais-democratas de última hora.

    Depois de levar três surras seguidas nas urnas, perdendo para Fernando Henrique Cardoso duas vezes e uma vez para Fernando Collor, o PT finalmente emplacou Lula duas vezes seguidas e a agora emplaca vitoriosamente uma mulher, a ex-Ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousself. Ela é filha da ditadura, da classe média politizada e da intelectualidade de esquerda que abdicou de lutar com armas de fogo para lutar com o que têm de melhor: o intelecto privilegiado. É a saia brasileira no poder. A saia norte-americana tentou chegar primeiro à Casa Branca, mas perdeu ponto para Barak Obama. Em sua melhor performance política, Hillary Clinton é hoje Secretária de Estado dos EUA. Um outro rabo de saia também chegou perto do poder na Casa Branca, mas, como todo mundo sabe, Mônica Lewinsky foi lá só pra fazer sexo oral no dono da casa. O poder do falo falou mais alto que a pudica etiqueta da casa de George Washington.

    Aos trancos e barrancos o Brasil vem dando saltos históricos: Lula era plebeu, era alienado mas não era ateu; quando veio do nordeste só trazia a coragem e a cara, viajando num pau de arara, mas chegou. Dilma não é plebéia, mas é atéia, tem coragem de mamar em onça, pegou em arma e enfrentou os brucutus da Ditadura Militar de 64, jamais experimentou a fome e tem sobrenome de bacana – Rousselff. E assim, dia 1º de janeiro, um operário passará a faixa presidencial para uma ex-guerrilheira, comandante-em-chefe de uma das mais ricas economias capitalistas do mundo ocidental, o nosso Brasil brasileiro, esse mulato inzoneiro. A cena de posse é a cara do PT, um partido confederativo, catalisador ideológico dos diversos segmentos sociais: a esquerda trotskysta, leninista, cubana, maoísta, a esquerda católica, profissionais liberais, estudantes, campesinos, comunistas, idealistas, ambientalistas, feministas, democratas, sindicalistas, artistas, classe média, excluídos, e até trabalhadores urbanos do ABC paulista, onde a agremiação partidária nasceu e se fortaleceu.

    Convenhamos: o programa de trabalho e a prática administrativa do PT não é nenhuma brastemp, é óbvio, mas ainda assim é bem melhor do que a agenda político-administrativa de José Serra e seus camaradinhas neo-liberais. O atual clima eleitoral também não é uma luta do bem contra o mal, nem uma batalha de gênero, o masculino contra o feminino. É a mais humana das atividades sociais posta em ação, segundo o jogo da democracia burguesa: a política, exercitada com vistas à conquista do poder. Para chegar ao poder o PT fez concessões, acordões e mensalões, é verdade, e com isso perdeu substâncias programáticas importantíssimas. O PT não realizou todas as promessas de campanhas, também é verdade, mas ainda assim suas realizações são muitíssimo mais interessantes para o país que as atuais promessas de Serra. Ante ao contexto circundante, em que pese os erros e acertos do Partido dos Trabalhadores no poder, o voto crítico deve se impor e separar o joio do trigo. Serra é Serra e nunca será mais que um político lugar-comum, a serviço de quem sempre mamou nas tetas profanas da pátria. Dilma é Dilma e se revelará uma grande guerreira das transformações, empunhando, agora, as armas da civilização, da legalidade, da democracia e da ação social para promover as mudanças, políticas, econômicas e sociais que as elites vêm adiando desde o clamor da Revolução Praieira nas plagas Pernambucanas.

    Ângela Merkel, (Alemanha), Ellen Johnson Sirleaf, (Libéria), e Michelle Bachelet (Chile) à parte, mulher e poder nem sempre dá uma mistura interessante. Dona Maria I, a louca rainha de Portugal, perseguiu impiedosamente o Marquês de Pombal, o déspota esclarecido que revolucionou a administração imperial. A Princesa Isabel posou de marionete da corte ao assinar a Lei Áurea, extinguindo a escravidão, mais para atender aos interesses do capitalismo inglês do que pra fazer justiça à gente de Zumbi dos Palmares. Maria Antonieta mandou o povo francês, descamisado e sem calção (sans cullote), comer brioche, já que não tinha dinheiro para comprar o pão nosso de cada dia. A própria Marta Suplicy mandou o povão relaxar e gozar, em meio à crise nos aeroportos.

    Com a mulher Dilma Rousself na presidência da república, porém, a história será bem diferente. Ela carrega consigo a coragem de Anita Garibaldi, o gosto pela guerra de Joana D’arc e a determinação de Olga Benário. Seu coração vermelho vermelhaço vermelhão tem sede de justiça social; seu espírito está impregnado da utopia socialista; sua mente brilhante não estará, creio, a serviço do capital, dos potentados, dos corruptos e dos especuladores, mas a serviço dos que clamam por emprego, saúde e segurança públicas, aposentadoria justa, educação, meio ambiente saudável, transporte público de qualidade, moradia, cultura, lazer e uma boa alimentação, para que o povo brasileiro viva melhor. Viver, aliás, não é preciso. Ver uma saia vermelha no poder, sim, é preciso.

    SHOW DO CHICO DA SILVA: BOM ATÉ DEBAIXO D’ÁGUA!

    24/10/2010

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    o manauara que nasceu pra cantar samba, no Mercado Cultural de Porto Velho

    Um verdadeiro fazedor da arte popular do nosso chão montou sua banca artística na calçada do Bar do Zizi, no Mercado Cultural de Porto Velho, onde acontece todas as sextas-feiras os módulos do Projeto Fina Flor do Samba. Chama-se Francisco Ferreira da Silva, de pia batismal e certidão de nascimento. Mas no coração do povo manauara ele é conhecido apenas por Chico da Silva. Um Francisco cantante, um Chico compositor. É sambista de boa cepa, mas também faz música de boi-bumbá. Seu coração de curumim criado sem cueca nos arredores de Parintins bate cadenciado na cores azul e branco, mas seu grande sucesso nacional veio na bandeira degradê da nação que venera a figura folclórica do boi vermelho, vermelhaço, vermelhão.

    Chico tem inúmeras músicas gravadas por gente de renome na calçada da fama da chamada Música Popular Brasileira, como Alcione, a Marron, por exemplo. Mas disso não faz muito alarde. Sua alma de caboclo lhe faz sábio e comedido. No Bar do Zizi, apenas cantou. Chegou, cumprimentou o público e cantou com alma de artista o que sabe cantar e compor: samba. Boa parte do público conhecia suas composições, por isso interpretou com ele, em coro, os velhos sucessos do artista. Empolgado com o coral de vozes entoando suas composições, ele caminhou no meio do povo, feliz e descontraído, como um ribeirinho dando canga pé em beira rio de água doce.

    Chico canta como quem joga conversa fora do botequim da esquina – descontraidamente, olhando nos olhos das pessoas, despojado e contente. Atuando no palco, não inventa moda nem falsetes de última hora. Deixa fluir simplesmente, em vários figurinos rítmicos, o seu esquadrão do samba, enquanto um pandeiro rebate no gol e na defesa bate o tamborim. Caprichoso por formação e batismo, ele também compõe para o boi Garantido, posto que no Amazonas a artista nenhum é dado o direito de se atrever a cantar música de apenas um boi. Sua sina franciscana lhe fez nascer na da cidade da ilha tupinabarama, mas cedo ganhou o mundo e já trabalhou até com um dos monstros sagrados da cultura nacional: o sambista Martinho da Vila. Quando desfrutava o apogeu da carreira artística uma doença grave tentou roubar-lhe a saúde e a voz. Todavia, ele lutou feito um bravo guerreiro dos parintintins e soube vencer a enfermidade, conseguindo também recuperar a voz que, no dia 01 de outubro último, ecoou por todo o quadrante do centro histórico da capital, no palco do Fina Flor do Samba.

    É preciso muito amor, Sufoco, O Barba Azul, Bailarina e Convite a Roberto Carlos foram algumas das criações que Chico da Silva mostrou ao público rondoniense. Ele foi trazido à capital pelo compositor e intérprete Ernesto Melo, graças a uma super-vaquinha que arrecadou dinheiro de vários simpatizantes do projeto cultural que acontece no Mercado Cultural de Porto Velho. O que era pra ser um show transformou-se numa grande festa popular. Calcula-se ter sido o segundo maior público do Projeto Fina do Samba até hoje. Apesar da chuva ter jogado muita água na apresentação de Chico da Silva, ele soube conquistar o coração da platéia, fazendo-a dançar e cantar suas músicas, como um regente bem-amado conduzindo a massa à performance de uma ópera popular, na qual o povo é quem produz o show e assina a direção.

    Chico da Silva poderia holywoodianamente seguir cantando na chuva, porque o show desse caboclo é bom até debaixo d’água!

    MOTORISTA DA CAÇAMBADA CUTUBA PEDIU PRA MORRER

    27/09/2010

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Renato Medeiros, líder dos ‘peles-curtas’, exibindo um doc para João Goulart

    Decorridos 48 anos de profundo silêncio em torno da Caçambada Cutuba, documentos revelam, hoje, que o motorista da caçamba, Wilson, arrependido do gesto bárbaro, pediu pra morrer: “Cumpadre, eu fui mandado, você me dê um tiro na cabeça que eu o perdôo”, teria dito, na cadeia, o suposto autor do terrorismo político ao seu compadre e testemunha Ladislau Nunes de Araújo, guarda territorial ouvido no dia 27 de setembro de 1962, pelo juiz Joel de Moura Quaresma, no Processo Criminal nº 3672, instaurado pela Justiça Federal do território para apurar judicialmente o dramático fato social. A fonte é fidedigna: cópias de autos conseguidas pelo jornalista Zola Xavier junto ao Centro de Documentação Histórica do TJ/RO.

    O atentado que ceifou a vida de muitos correligionários da primeira grande Frente Popular de Esquerda chocou toda a provinciana Porto Velho de antanho e ocorrera um dia antes, numa calorenta noite de 26 de setembro de 1962, na rua Lauro Sodré, quase chegando na rua Abunã, próximo ao cabaré da Delícia, quando um veículo tipo caçamba, chapa branca, pertencente à prefeitura municipal de Porto Velho, que estava vindo do comício dos cutubas, no bairro do Areal, foi lançado contra os partidários do então candidato a deputado federal Renato Clímaco Borralho de Medeiros, presidente do Partido Social Progressista e líder dos Peles-Curtas, que disputava a vaga parlamentar com o coronel Ênio dos Santos Pinheiro, que já houvera sido governador do Território Federal de Rondônia em 1953, por indicação do mesmo padrinho que o apoiava em 1962: o também coronel Aluízio Pinheiro Ferreira, chefe dos Cutubas (partidários do aluizismo) e maior liderança da história política de Rondônia. O prefeito da época era o cutuba sangue puro José Saléh Morheb. Os mais velhos dizem que muita gente morreu, mas não se tem até hoje a contabilidade desses mortos.

    Com certa dose de ironia a atormentar a amnésia dos guaporés, está escrito em latim na capa do que restou dos registros penais do episódio da Caçambada Cutuba que o processo criminal é do tipo Ad Perpetuam Rei Menoriam, isto é, para a perpétua memória do fato. Se assim deseja o Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia e a deusa Thêmis, que usa venda nos olhos, mas não é doida varrida, vale registrar para os anais da história que foi o advogado Fouad Darwich Zacharias o causídico que arrolou e requereu a inquirição dos guardas territoriais José Faustino de Oliveira, José Rodrigues Maciel e Ladislau Nunes de Araújo, como testemunhas. Era a reação Pele-Curta ao atentado.

    Às dez da manhã do dia 27, no Fórum Ruy Barbosa, a postos o escrivão Durval Gadelha, o Dr. Hélio Fonseca, Promotor Público Substituto, o Dr. Fouad Darwich e o juiz Joel Quaresma de Moura, as três testemunhas foram ouvidas pela justiça. Revelou o depoente Ladislau “que diversas vezes repetiu o preso ao depoente que havia sido mandado e pediu que lhe desse um tiro na cabeça”; “que perguntou-lhe mais o depoente se estava embriagado ao que o preso em questão lhe disse que não, que estava bom”; “que esclarece o depoente que fez essas perguntas ao preso enquanto estava trancando a cela”. Na versão do guarda José Maciel, depois de introduzi-lo na cela, o guarda Ladislau lhe perguntou: “Cumpadre porque é que você fez isso?” “Que respondeu ele numa expressão equivalente ao sentido de dizer que estava desgraçado” Para uma quarta testemunha a depor no processo, o senhor João Marques Vasconcelos, também da Guarda Territorial, o diálogo dele com o motorista da caçamba teria sido o seguinte: “Compadre, você que é chefe de família, como é que foi meter-se numa enrascada dessa?” Então o preso respondeu “aproximadamente com essas palavras: fui mandado para distribuir o pessoal do comício e ao chegar próximo do lugar do comício, quando vi a massa procurei estacionar o carro mas o freio enganchou no acelerador e quanto mais pisava no freio, mais acelerava o carro”. Não há nos documentos pesquisados nem a peça de interrogatório do motorista da caçamba nem a sentença, condenando ou absolvendo o réu. A justiça rondoniense deve saber explicar o porquê.

    Para os que acham que a Caçambada Cutuba é um delírio inventado ao sabor do revanchismo histórico, a voz da perpétua memória do fato fala mais alto nos dizeres que um serventuário da justiça deixou escrito na folha de rosto do documento conseguido por Zola Xavier, o Caçador de Alfarrábios da Biblioteca Nacional:

    “Obs: O sr. Wilson de Tal, motorista da Prefeitura Municipal de Porto Velho, investiu com o caminhão contra o povo num comício político.

    Segundo testemunhas, o criminoso alega ter sido a mando de alguém”.
    Saber quem deu a sinistra ordem ao humilde motorista da prefeitura continua sendo um segredo insondável, incrustado na região subcutânea da página histórica sentimentalmente mais eloqüente da política regional: o apaixonado embate entre as belicosas nações dos Cutubas e Peles-Curtas.

    O QUASE SEQUESTRO DO ZEZECA

    25/08/2010

    por Beto Ramos

    No tempo de Pirocão, Pintão e Pau-Seco não tinha disso não…

    O futebol de Porto Velho já desfilou com uma coroa bem mais dourada em outros tempos.
    Existiu um tempo onde nossos atletas eram realmente craques aos nossos olhos.
    Uma época onde nossos craques eram Gervásio – Ferro – Parruda – Gainete – Serrão – Edson santos – Walter Santos – Pirralho – Meu pai “Buchudo” – Meireles – Edu – Nazaré – Mundoca – Faz-tudo – Reis – Zezeca e tantos outros que fizeram história no palco principal do nosso esporte o Estádio Aluízio Ferreira.
    Dos nossos clubes queridos, muitos ficaram apenas na lembrança e em fotografias em algum lugar.
    Desde a época do União Esportiva fundado em 11 de junho de 1916, o primeiro clube de futebol de Porto Velho, que treinava na Baixa da União, lugar que revelou tantos craques, muitos foram os times de futebol que disputaram campeonatos em Porto Velho.
    Que saudade do Ypiranga Esporte Clube, o segundo clube filiado a Federação do Desporto do Guaporé, fundado em 13/04/1919.
    Que saudades do Ferroviário Atlético Clube e do Clube de Regatas Flamengo.
    Saudades daquele Moto Clube, São Domingos, Botafogo, Rondônia, Vasco da Gama, Cruzeiro e tantos outros.
    O que foi feito do nosso futebol ?
    O Campeonato de futebol da década de 60 na Baixa da União era bem mais animado que este tal de profissional que existe por ai!
    Que Saudades do Fera, José Camacho, Mitoso, Chico Santos, Mourão, César Zoghbi, Albino Lopes,
    Sebastião Lapa, até o Loló não é mais o mesmo.
    As histórias e estórias do nosso futebol estão indo pro andar de cima com os que partiram.
    O nosso futebol também é cultura.
    Uma cultura popular que está sendo riscada do mapa se alguma coisa não for feita para mudar o resultado deste triste campeonato.
    O nosso futebol é cheio de lendas ou como dizia meu velho, presepadas para todo o gosto.
    São muitas as “presepadas”.
    Diz a lenda que nos meados dos anos 60, o campeonato era disputadíssimo.
    Eram realizadas mandingas.
    Forças ocultas extra campo também eram usadas para melar os resultados.
    Existia até a pimenta do seu Camacho, assunto para outras linhas.
    Zezeca era o goleiro do Moto Clube nesta época de ouro.
    Amazonense, veio para Porto Velho junto com seu irmão Joanildo Ramos “Buchudo”.
    Aqui chegando foram morar na Rua Salgado Filho junto com o Osvaldo Reis, numa estância com o nome de trem de palha, trem de palha pois era coberta de capim sapé.
    Dizem que no verão aquele capim estralava.
    Conversando com Zezeca, ele me disse que certa vez a dona da estância que gostava de fumar um cachimbo, cochilou perto do mosquiteiro. O Cachimbo caiu e aconteceu um incêndio no trem de palha. Todos correram para ajudar e a dona da estância estava preocupada era com a roupa do seu velho, e gritava: a roupa do Nonato o paletó do meu velho Gama! Ajudem a salvar a roupa do Nonato o paletó do meu velho Gama.

    O dirigente principal do Flamengo, dono do Flamengo, o tudo do Flamengo era o Velho César Zoghbi. E o velho César estava disposto a tudo por um bom resultado do seu clube. O clássico de certo domingo da década de 60 seria Moto Clube X Flamengo. Times recheados de super craques. No domingo pela manhã o Moacir Borracha, folclórico morador de Porto Velho, sabendo que o Zezeca fazia manutenção de bombas , motores de todo o tipo, convido-o para ir num sítio no KM 12 da BR 364, explicou que uma bomba havia dado problema e coisa e tal. Como o Zezeca era funcionário do Moacir, aceitou o pedido, mas foi logo dizendo que haveria jogo no Aluizão e que não poderia demorar no sítio.
    O Moacir acalmou o Zezeca e disse que seria rápido e que se preciso fosse o Jipe até voaria na volta.
    O que o Zezeca não sabia era que tudo estava combinado com o Velho César Zoghbi. Chegando ao sítio o Moacir já foi convidando o Zezeca para tomar um Drinque com água-de-coco. Aquela era uma época em que a rapaziada não dispensava uma bebidinha.
    O Zezeca tomou uma e já foi perguntando a hora.
    O Moacir foi logo dizendo que ainda era cedo.
    O tempo foi passando, o serviço foi terminado e o relógio não andava, não passava das 13:00 hs.
    E o Moacir empurrando Wisky no goleirão do Moto.
    Vamos embora que este relógio tá doido.
    O sol tá baixando e já passam das duas.
    Então o Moacir junto com o Zezeca pegaram o Jipe e azularam rumo ao Aluizão.
    No KM 8 resolveram dar uma parada.
    O Moacir sempre segurando o tempo ao máximo.
    Nisso o Zezeca resolveu perguntar ao Cândido pela hora.
    Para sua surpresa o velho Cândido perguntou o que aconteceu para ele não agarrar no gol do Moto Clube.
    Prontamente o Zezeca disse que estava indo para lá.
    Como indo para o jogo ?
    Pera ai que vou ligar o rádio.
    Justo na hora em que o rádio foi ligado o narrador gritava gol do Flamengo.
    Era o primeiro.
    O Zezeca possesso obrigou o Moacir Borracha a entrar no Jipe e partir rumo ao estádio Aluízio Ferreira.
    E perguntava que presepada era aquela.
    E o Moacir calado com um riso no canto da boca.
    A verdade e que esculhambaram a bomba de propósito, e levaram o Zezeca para que ele não participasse do jogão contra o Flamengo.
    Chegando ao Estádio o Goleirão tentou entrar e foi barrado pelos porteiros do estádio, tudo a pedido do velho César Zoghbi.
    Confusão formada chamaram a polícia para retirar o goleiro aparentemente embriagado pelo driques com água-de-coco. Tudo armação e o resultado do jogo já estava 2 x 0 pro Flamengo.
    Desesperado o Zezeca livrando-se da polícia, pulou o muro lateral do estádio, ralando todo o peito.
    Meio sem rumo, ao pular caiu dentro de uma caixa de água, fato que salvou-o de quebrar alguns ossos do corpo.
    Logo chegou o velho César Zoghbi sorrindo e disse para os policias levarem o goleirão de novo para fora do estádio pois estava embriagado.
    A gozação com o goleirão foi muita e por muito tempo.
    Anos mais tarde o Zezeca foi ser o goleiro do Flamengo.
    O contrato: Um emprego na Prefeitura de Porto Velho na Fábrica de Asfalto.

    Foi ai que surgiu o bloco de sujo ASFALTÃO.
    O Zezeca é um dos fundadores do que é hoje uma grande escola de samba.
    Ele era a nega maluca que abria o carnaval do asfaltão.
    Tem gente que não lembra nem com Makumba.
    Mas, isto também é assunto para outras linhas.

    Zezeca hoje trabalha no Hospital de Base Ary Pinheiro de Porto Velho, está com 67 anos e guarda boas lembranças de um tempo que não volta mais.
    Esta é uma das muitas histórias ou estórias da nossa gente.

    DIZ A LENDA.

    ANJOS DA MADRUGADA OU O CÃO CHUPANDO MANGA?

    25/08/2010

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Grupo de Boêmios da noite quente da floresta

    Se em Olinda tem o famoso Bacalhau do Batata, nós temos o bloco Pirarucu do Madeira. Se o Rio de Janeiro se gaba de ter a Banda de Ipanema, nós possuímos a Banda do Vai Quem Quer. E se na cidade de São Paulo tem os Demônios da Garoa, nós aqui em Porto Velho temos os Anjos da Madrugada. Com eles dando um show na calçada do Bar do Zizi, no Mercado Cultural, a noite de sexta-feira ficou hiper-animada, levando as pessoas que viram a balada a aplaudirem com entusiasmo o grupo musical que passionalmente incendiou o terreiro do samba. Eles chegaram assim de mansinho, como quem não quer nada, e quiseram e conseguiram tudo: entornar a boa dosagem de lirismo e nostalgia que a civilização brasileira herdou do sangue lusitano – além da sífilis, claro, como diria Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra.

    Eles tocam essencialmente bolero, mas isso não lhes impede de contemplar o público com uma série de outros gêneros musicais da lavra brasileira e internacional. No palco, o grupo se apresentou vestido todo de branco, querendo transparecer uma certa pureza angelical, mas de anjos eles não têm nada, pois são o cão chupando manga, tocando o zaraio no meio do mundo, quando acionam seus baixos, suas vozes carregadas de emoção, suas congas, bongôs, violões e teclados para detonar o baixo-astral e pregar no púlpito da diversidade musical sua mensagem seiscentista: carpiem die. Isto é, aproveitem o dia de hoje na paradoxal página do presente eterno. Latinos são os Anjos: cantam com o coração em apaixonada performance interpretativa. Saltam de um “Bésame Mucho” para um “Tell me Once Again” com espantosa naturalidade, deixando um único liame explicativo – o romantismo, em alguns momentos piegas, que lhes transborda o caldeirão sentimental. Proclamam-se seresteiros por excelência, mas fazem bem humoradas incursões no xote, no samba de Noel Rosa e no território da Jovem Guarda como se Meu Carro é Vermelho fosse um hit parade inventado na semana passada. Boêmios versáteis é o que são.

    Arregaçando o espaço do samba pelo avesso, a companhia musical Anjos da Madrugada esteve em cena, dia 20 de agosto, no projeto cultural mais badalado do final de semana em Porto Velho: a Final Flor Samba, capitaneado pelo “Poeta da Cidade”, o cantor e compositor Ernesto Melo. A mostra musical acontece toda sexta-feira, a partir das 20 horas, no Mercado Cultural, no centro histórico da capital, com o patrocínio da Fundação Iaripuna.

    Apresentando-se no quadrilátero cultural do centro antigo de Porto Velho, todos eles estavam impecáveis, é vero. Mas é preciso separar o joio do trigo e distribuir o pão do talento a cada um, segundo o quinhão que cada um desses artistas merece: o intérprete Waldemar Nazareno, cativante e cavalheiresco, vencedor de um concurso regional que o levou a se apresentar no programa do Raul Gil, como representante do Estado de Rondônia, conquistou o público o presenteou com toda sua competência, sensibilidade vocal e seu jeito carismático de se locomover no palco; Altair dos Santos, o Tatá, Presidente da Fundação Cultural Iaripuna, mostrou com quantos paus se faz uma cozinha bem temperada, utilizando congas apimentadas, bongôs com cheiro verde e ataques de execução precisos e graciosos, bem como a expressão de risos no ar, descontraindo o ambiente como se estivesse tocando tambor de caixa num boi-bumbá qualquer dos terreiros de Calama, na região do baixo Madeira. Roberto Matias, baterista habilidoso e afrodescendente, tranqüilizou o grupo ao garantir a cadência e o fluxo rítmico que as músicas requerem para provocar agradabilidade entre os ouvintes da troupe; o tecladista e também vocalista Charles Kazan, dono de voz poderosa e bem tonificada, é músico de mão cheia, contribuindo para que os arranjos tivessem requinte e personalidade na apresentação dos angelicais. Dando um show de suporte harmônico à banda, encontramos Edmar Jucá. O experiente guitarrista, esperto e antenado no que o povo gosta, usou e abusou de seqüências harmônicas e acordes que dão qualidade e comunicabilidade ao discurso plástico das peças musicais. No baixo, a tranqüilidade em pessoa: o tarimbado Sérgio Santos fazendo a cobertura dos acordes sonoros produzidos pela guitarra de Jucá e pelo teclado de Kazan. Não se sabe ontologicamente qual o sexo dos anjos em geral, mas em se tratando de Anjos da Madrugada cada um tem o seu bem definido. Priscila, por exemplo, vocal do pelotão de frente da companhia musical, é a única, dentre esses espíritos celestes e mensageiros de Deus, a representar o sexo feminino na pândega. Afinada, animada, simpática e plugada no que faz, ela encantou aos olhos e aos ouvidos do respeitável público que tomou de assalto quase todos os recantos da Praça Presidente Getúlio Vargas.

    Os Anjos da Madrugada têm esse nome porque no nascedouro da carreira musical desses bambas do bolero e da MPB está o fato de terem pertencido ao Movimento da Juventude Católica, que tinha por base eclesial a paróquia de Nossa Senhora das Graças, depois do bairro Quilômetro Um. Hoje, comemorando vinte e dois anos de pé na estrada, eles vão de peito aberto aonde o povo está. Não têm medo da crítica. Não têm medo da vida. Tocam de tudo. Até brega, se o brega é de boa qualidade e agrada ao público. Executam boleros se preciso for, para que a romântica atmosfera da noite cresça no coração do homem e ele se sinta satisfeito e realizado, amante e amado, entre um trago no copo e o balanço de um corpo bom colado ao seu, no desvairio da eterna busca pela felicidade.

    Dizem que são anjos, e são mesmo. Com suas poções mágicas cuidam das pessoas. Com suas beberagens melódicas e farmacológicas curam as chagas e as dores dos populares que os assistem. Sob suas asas, por um breve momento o mundo é tomado pela bandeira branca das colcheias, fusas e semifusas que decolam do pentagrama como se fossem pombas da paz derramando bênção musical sobre o corpo de quem os vê assim maduros, de bem com a vida e cheios de vontade de fazer o povo feliz. Cantando, são embaixadores da esperança. Se apresentando nos palcos da vida, são operários do fazer artístico, saltimbancos do lúdico, invadindo a praia da Fina Flor do Samba. Tocando, são espíritos de luz em meio ao irracionalismo político-administrativo que está lançando este Estado ao fogo desmedido da ganância.
    Concebendo sua arte, são deuses terráqueos fazendo das tripas coração para que o homem se redescubra divino também, e não ataque a natureza de forma cruel como eles bem testemunharam na esfumaçante noite em que se apresentaram, sob o olhar perdido e triste do Pai dos Pobres, cujo busto chorou de tristeza vendo a sensibilidade humana virar cinzas.
    O fato é que na exibição do último capítulo da maior novela musical do Estado de Rondônia, a Fina Flor do Samba, sexta-feira passada, no Mercado Cultural, anjos que voam na hora da garoa, ao som de boleros, mambos, rumbas, xotes e samba-canção, exorcizaram os demônios da madrugada com a entonação de cânticos sacros e profanos das únicas igrejas que são unanimidades entre os tupiniquins: os seguidores do bolero dos últimos dias e a santa música popular brasileira. Quem são eles, final? São Anjos da Madrugada ou o Cão chupando manga meio dia em ponto? Não se sabe. Diz a lenda que são gente como a gente, que pecam, que sonham, que amam e que cantam…

    Fina Flor do Samba Revela Ênio Melo Cantando Paulinho da Viola

    23/08/2010

    por Antônio Serpa do Amaral Filho

    Ênio Melo passou em revista a obra de Pulinho da Viola

    Cantando na calçada do Bar do Zizi, Ênio de Oliveira Bento de Melo revelou-se um dos melhores porta-vozes da música de Paulinho da Viola em Rondônia e passou em revista a obra do compositor, inundando de magia e malemolência o centro histórico guaporé. Ele não nasceu pro samba. Nasceu pra jogar basquete. A exemplo do revolucionário Tchê Guevara, sofreu e lutou contra a asma por um bom tempo. Cantava miúdo e para dentro, hoje canta pra fora em bem dosada vocalização: nem tão sustenido que pareça boçal e agressivo ao bom ouvido da platéia, nem tão descaído em profundo bemol que lhe deixe aquém do tom ideal. Em perfeito diapasão com a performance de um gentleman falando musicalmente em nome de um lorde da Portela, Ênio Melo mostrou-se um eloqüente intérprete que não abre mão da decência e fidalguia na hora de servir à mesa do ouvinte o gênero inventado por Donga, Ismael Silva e Sinhô. Sua apresentação na sexta-feira passada, dia 06, no projeto Fina Flor do Samba, defronte ao Mercado Cultural, atraiu uma enorme quantidade de gente e bambas da mais nobre estirpe musical e fez o centro histórico de Porto Velho respirar os bons ares da poesia do autor de Pecado Capital, Foi um Rio Que Passou em Minha Vida e tantas outras pérolas negras da música popular brasileira. Babá, Dadá do Cavaco e Neguinho Meneses olharam bem fundo nos olhos do intérprete e copiosamente choraram, lembrando o que disse Vinícius: fazer samba não é contar piada/quem faz samba assim não é de nada/um bom samba é uma forma de oração!

    A missão honrosa de fazer a abertura do show coube ao Presidente da Fundação Cultural Iaripuna, Altair dos Santos, o Tatá, que, mesmo sem a bendita iluminação artística no palco que mais vende a imagem do Mercado Cultural, não se fez de rogado e apresentou ao público a atração da noite, narrando em síntese um pouco da trajetória de vida do filho de Dona Tereza e do seu Esmite Bento de Melo, o Príncipe do Real Segredo Maçônico de Rondônia e um dos poucos a ter, in memorian, cadeira cativa no tradicional Bar do Zizi. Quanto ao despojamento, nota dez para o Tatá. Quanto à atitude administrativa de não providenciar luzes para o show, a nota crítica não poderia ser outra: ZERO.

    Sabendo que cantar Paulinho da Viola não é fazer um pagode qualquer em boteco de pé de esquina, Ênio se cercou de todos os cuidados musicais possíveis na produção do seu show e conseguiu o melhor dos resultados: interpretar com maestria a obra do grande compositor, sem pagar tributo nem ao culto exagerado à imagem do artista nem ao romantismo intenso que flui das construções poéticas de suas letras. Ninguém precisa empurrar o rio Madeira abaixo, pois ele corre pachorrentamente sozinho – é sabido. Na gestalt musical de Ênio Melo deu-se a mesma coisa: Paulinho da Viola jorrou naturalmente no leito cadencial dos acordes bem articulados do sargento Ney, com o auxílio luxuoso do pandeiro de Válber, do apurado tamborim de Edmilson Night, do tantã bem colocado de Neguinho, o ganzá e o reco-reco dos serenos Sérgio e Beto Ramos e o surdo hiperbólico de Álvaro, ex-integrante do Kizomba. Jogando no meio de campo desse time de bambas, via-se Oscar Night batucando em síncopes seu requintado repique de mão.

    Ênio Melo, a grande atração musical da última exibição do Fina Flor do Samba, é um intuitivo. Irmão de Ernesto Melo e marido de Dona Rosa, ele ingressou de forma transversa no domínio do violão, pois antes de saber ele já sabia que sabia. Hoje, com 5.0 de idade, reconhece, para o deleite do folclore popular, que seu caso de amor com a música e com a viola nasceu mesmo num ataque de birra provocado pelo amigo Ademir Romano, o Bacuri, que, medíocre e monocórdio, passava horas e horas encafifado num dó maior e não conseguia finalizar a música iniciada. Indignado, Ênio passou a estudar harmonia e execução, venceu a asma e soltou a voz. Por isso é hoje belo e inspirador, empunhando com altivez a viola e cantando o samba como ele deve ser cantado: com paixão e encantamento, como se todas as canções fossem dedicadas à mulher amada e o mundo fosse se acabar um minuto depois do último acorde dissonante.

    No dia em que Ênio Melo se arvorou a mostrar a arte e o talento de Paulinho da Viola no centro histórico de Porto Velho, a noite só poderia mesmo terminar com uma bela homenagem a um monstro sagrado da musicalidade tupiniquim – e assim foi feito, diz a lenda. No plano espiritual, saiba Adoniran Barbosa que sua passagem na terra não foi em vão: a Saudosa Maloca, o Samba do Arnesto e o Trem das Onze continuam semeando, em todos os quadrantes, sentimentos os mais sublimes no coração da gente brasileira. E assim, com Ernesto Melo e Hudson no vocal, entoando o sambista da garoa, teve fim mais um capítulo da maior novela musical de todos os tempos em Rondônia: a Fina Flor do Samba. Salve o Bar do Zizi!


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