Show de Sílvio Santos Brilha na Escuridão

07/08/2010

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Sílvio Santos brilhou na escuridão cênica do Bar do Zizi

Apesar da Fundação Iaripuna ter deixado o palco às escuras, por falta de iluminação artística, o show de Sílvio Santos brilhou no escuro da noite como um diamante fosforescente desafiando as trevas da falta de sensibilidade operacional dos nossos gerentes administrativos. A apresentação do incandescente compositor e folclorista Sílvio Santos aconteceu no último circuito do projeto “Ernesto Melo e a Fina do Samba”, apresentado dia 30 de julho, na sexta-feira passada, no Mercado Cultura, no centro histórico de Porto Velho. Em que pese o projeto Fina Flor do Samba ser hoje o maior ponto de encontro de sambistas da capital e ser também a produção cultural que mais divulga uma das maiores obras do prefeito Roberto Sobrinho, o Mercado Cultural, a administração petista insiste em tratar o projeto com a miopia digna dos que têm olhos sãos e não querem enxergar um elefante branco trotando à luz do dia. Sílvio, que não dá bom dia a cavalo, foi providencialmente irônico e, na abertura do seu espetáculo musical, cumprimentou e agradeceu ao Tatá, presidente da Fundação Iaripuna, “o patrocínio da iluminação do show”. A platéia compareceu em massa, curtiu, cantou e dançou, prestigiando a performance do compositor.

Trajando um blazer estiloso, Sílvio inaugurou seu leque repertorial com “Amor de Quatro Dias’, relembrando nostalgicamente, ainda que de passagem, o caso de amor da dupla mais romântica dos velhos carnavais: os clássicos Pierrot e Colombina. E a partir daí seguiu desfiando seu novelo de composições, surpreendendo a quem só o conhecia como amo de boi e jornalista do Diário da Amazônia e maravilhando quem já sabia desse seu potencial. O samba do Cara de Paca, como também é chamado, tem a marca da heterogeneidade, tanto temática quanto estilística. Daí ele ser capaz de encerrar um belíssimo samba-canção e ingressar frenético em meia dúzia de sambas-enredos, depois de ter passeado de sapatinho branco na passarela do samba de breque. Em “Porto, Velho Porto” sua veia memorialista deságua na ilharga de uma suburbana cidadela temperada pelo papo sadio, pequenos senões e uma beleza sem par numa Porto Velho de João Barril que ninguém imaginava que fosse se transformar no que é hoje.

Acelerando o andamento e colocando no arranjo um acorde perfeito maior, Zé Katraca, como também é conhecido o compositor, apresentou ao público seu pout porri de marcantes e vitoriosos sambas-enredos, construídos a partir de profundo mergulho na literatura nacional e internacional, na lembrança dos personagens históricos do país, da cidade e do nosso carnaval, como Camões, o poeta genial, e Afonso Henriques, fundador da primeira dinastia (de Borgonha), Marize Castiel, o bairro Caiari, a feira e outros. A canção “Odoiá Bahia”, feita em parceria com Valdemir Pinheiro da Silva, o Bainha, merece registro especial por ter sido a grande vencedora do primeiro Festival de Música Popular Brasileira de Rondônia – o FEMPOBRO. Uma outra pétala clássica do buquê de notas musicais de Sílvio, a lendária “Ceará, Lendas, Rendas e Crenças”, escrita em parceria com Babá e Haroldo, fez o público relembrar e cantar junto uma das mais bonitas páginas da composição regional no gênero samba-enredo. Nesse momento de absoluto êxtase musical, depois de ter reverenciado o também compositor Ernesto Melo, cantando Veriana, de 1984, todos os espíritos que perfazem a história e a memória da cidade desceram no centro histórico, como se estivessem sendo abduzidos por seus cavalos no chão de terra batida de Santa Bárbara e Samburucu.

Para fechar em grande estilo sua apresentação e mostrar o potencial criativo da gente Guaporé só faltava mesmo Sílvio Santos convidar o povo a cantar as marchinhas do maior bloco carnavalesco da amazônia ocidental, a Banda do Vai Quem Quer – o que foi feito. A lua brilhando no céu e a fluorescente poesia do samba reluzindo em frente ao Palácio Presidente Vargas deixaram uma só certeza: nada substitui o talento e a espiritualidade da gente desta terra, em meio ao violento processo de transformação por que estamos passando. Apesar dos pesares, o show de Sílvio Santos brilhou na escuridão cênica do Bar do Zizi. Salve o compositor popular!

José Saramago, o Boca do Inferno

27/06/2010

por Antônio Serpa do Amaral Filho

O ateísmo não era a única característica de Saramago

Se Friedrich Nietzsche estiver certo, Deus está morto e José Saramago também. O duelo de titãs acabou. Calaram-se as cordas vocais do provocador de conflito entre Criador e criatura. Partiu o pregador solitário, cuja voz, embora contida e já carcomida pelo tempo, reverberava em todos os quadrantes do planeta, como se fosse uma praga enviada pelo anti-cristo. Se a transcendentalidade da alma de fato existe, uma hora dessa ambos já estão se entendendo, traçando prosa amena em algum lugar do além. A cena é relicária, nos conta Raul Seixas: lá vem Deus deslizando no céu entre plumas de mil megatons, marchando ao encontro do espírito de um certo zé escrivinhador que viveu na Terra e que ousou negar a existência do Divino.

Agora, se a transcendentalidade é conversa pra boi dormir, então Deus é só um delírio e sua ideologia não serve apenas de ópio ao povo, mas traveste-se de verdadeiro tratado que provoca cegueira nos olhos da humanidade, carente, perplexa e infeliz. O homem não é imagem e semelhança de Deus; Deus é que é a imagem e semelhança dos anseios do homem.

Quase imortal, José Saramago foi-se embora enfrentando a paradoxal radicalidade da vida: a morte – angústia de quem vive, fim de quem ama, diria Vinícius de Morais. A pena do falecido escriba lusitano arvorava-se ferina e viçosa, combativa e denunciadora, e com ela Saramago desafiou a Santa Madre Igreja, o Papa e todos os santos da terra. De porte de sua arma quase letal, comportava-se como verdadeiro espadachim em guerra nada santa¸ digladiando com os anjos de Deus e ideólogos do Vaticano no deserto do ceticismo exacerbado, por onde trafegam pouquíssimos ou quase nenhum peregrino. Estão todos percorrendo o caminho de São Tiago de Compostela, curtindo aventura, arte e misticismo. É preciso ter inabalável fé nas suas convicções para ser um ateu de verdade. Mas em que pese a grandeza de seu espírito em negar a existência de Deus, o ateísmo não era a única característica palpitante e polêmica do Prêmio Nobel em literatura, na seara da língua portuguesa. O idioma de Camões ganhou as manchetes e traduções em todas as línguas do mundo, graças à perene inquietude alojada no coração do escritor.

Em suas veias corria muito pouco sangue e seu olhar revelava-se como vitrais estilhaçados, pontiagudos e cortantes, oferecendo perspectivas obtusas, anômalas e inusitadas aos seus leitores. O autor de o Evangelho Segundo Jesus fez do cristianismo seu pano de fundo predileto, na elaboração de seus textos, por entender que a literatura antes de ser ato de criação é principalmente atitude de destruição, decretação de falência de parâmetros conceituais e palpitação tresloucada de espírito de porco que insiste em chafurdar na lama da sociedade dos homens. O criado de Jangada de Pedra assumiu, por fé na descrença das entidades metafísicas, sua fidelidade aos ideais humanistas. Não de forma mecanicista, porém de maneira criativa e machadianamente bem humorada, negou Deus para afirmar o Homem como senhor da vida. Sua palavra literária tinha raízes profundas na terra em que pisava. Por isso não precisava ser panfletário para mostrar que o Rei está vestido, e rico, e que passa bem, obrigado; nu mesmo estão o séquito e a multidão que observam sua majestade, o sistema político-econômico que controla a idiotice e a vassalagem na República Socialista do Guaporé e em todo o mundo. No Brasil, não chegou a tomar posse como Sócio Correspondente da Academia Brasileira de Letras. Morreu como qualquer mortal, reafirmando com seu gesto ser a finitude o grande bem da vida. O não-sentido é o sentido da existência. Ou se faz justiça social aqui e agora ou ela nunca será realizada, porque não existe nem Deus nem projeto divino para o homem. O homem não tem pai, só tem mãe: a História. Deus é utopia, promessa de ungüento para curar ferida de desesperados e peneira com a qual se tenta tapar o sol dessa dura realidade.

É uma das sínteses a que se pode chegar, captando nas entrelinhas o que escreveu o Boca do Inferno da contemporaneidade, o crítico dos críticos, José Saramago. E já que o autor de Caim se foi, e ficamos nós a matutar sobre o imbróglio ontológico da existência, por via das dúvidas: que Deus o tenha!

Zapata Perdeu a Vida. Lula Perdeu a Voz.

15/03/2010

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Porta-voz escusa: “Lula não é ONG de defesa dos Direitos Humanos”

Lula pisou na bola: silenciou quando deveria ter falado e falou quando deveria ter silenciado. Fez comparações estapafúrdias e disse coisa nenhuma, quando deveria ter sido a caixa de ressonância da crítica e da autocrítica da esquerda latino-americana. Perdeu, assim, a oportunidade histórica e dialética de se firmar como porta-voz da justiça social com democracia e respeito aos direitos humanos. As traças do poder parecem estar corroendo o estofo ético e ideológico do Filho do Brasil.

Ele tropicou e caiu feito um mocorongo que leva uma topada. No meio do caminho tinha uma pedra esperando-o na esquina do tempo. Seu nome: Orlando Zapata Tamayo, um dissidente cubano recentemente falecido, cuja morte engasgou o presidente-operário. Zapata fazia greve de fome e lutava por melhores condições de vida dentro do cárcere onde expiava sua condenação. O petista se comportou como um fervoroso militante esquerdista da década de 60, apaixonado pelo comunismo, mas incapaz de exercitar um mínimo de crítica às truculências praticadas nos bastidores da Cortina de Ferro. Lula preferiu a dissimulação a postura crítica, fez opção pelo pragmatismo ético e amarrou seu burro no convencionalismo diplomático da não-interferência em detrimento da grandeza do humanismo que não se submete às etiquetas da política de boa vizinhança. Cuba já foi a menina dos olhos da esquerda brasileira. Assim como o comunismo, à moda soviética ou chinesa, ou albanesa, também tomou ares de verdade histórica incontestável entre nós. O Muro de Berlim ruiu, a Albânia desapareceu, a China transformou-se e a União das Repúblicas Socialista Soviéticas sucumbiu para sempre, varrida do mapa pelas ondas intrínsecas e turbulentas da perestroika e glasnost. Só a velha Cuba se mantém de pé – a um custo social altíssimo, o que é sabido por todos, menos por Lula, que cinicamente finge não ter a menor idéia do que se passa sob as barbas de Fidel.

Quando um líder político abre mão de valores essenciais à afirmação dos direitos humanos, sem dúvida que é chegada a hora de ser olhado com desconfiança e cautela, porque isso é um claro sinal de que sua alma está encomendada ao culto do poder pelo poder, ao culto do personalismo ideológico, ao inferno dos interesses de governo que transaciona com governo no estrito limite do que seja vantajoso para ambos. O socialismo é uma forma de humanismo, mas, circunscrito ao exercício do poder pelo homem, só vai até onde vão os interesses de Estado, de cúpulas e cópulas do poder com o Príncipe e seus correligionários. O humanismo verdadeiro, ao contrário, tem combustível moral para ir muito além das marcas recordes do socialismo real, tupiniquim ou cubano. E, no exercício do poder, para falar a verdade nua e crua, o humanista não precisa ter aquilo roxo não, basta ter a firme convicção de o homem está sempre acima dos governos, das ideologias, do partido e do Estado. Esse é o diferencial entre a política como ferramenta de administração e essa mesma política com expressão do comprometimento total com os interesses do habitante da polis, o homem.

Lula quer emplacar Dilma. Ela, que hoje é pré-candidata à presidência da república, pelos seus feitos em plena ditadura militar, fosse uma combatente cubana, estaria agora jogada às baratas num fedorento cárcere do quintal de Fidel Castro. Se eleita, Dilma deve mostrar ao companheiro Lula que, quando se pega em arma para defender a liberdade, a voz não deve calar nunca, enquanto houver uma centelha de consciência ardendo na alma de quem tem o poder do Estado enfeixado em suas mãos.

Orlando Zapata era um operário, lutou e perdeu a vida. Lula também era um operário, ganhou duas eleições e perdeu a voz.

ALÉM DE AVATAR

23/02/2010

por Antônio Serpa do Amaral Neto (vestibulando)

tupiniquim, pataxó, karipuna ou uruê-au-au de Pandora

Caros e ilustres leitores, o nome é AVATAR. Sim, sim, sim, AVATAR, uma mega produção de ficção científica do diretor James Cameron, distribuída pela 20th Century Fox. Realmente é grandioso e, como todos dizem, seus efeitos são demais, com direito a imagem em 3D; é de tirar o fôlego. Como fala o “poeta”, agüenta coração, filas e filas em todo o mundo, batendo recordes de bilheteria.

É isso mesmo, assim como o Ronaldo nos seus tempos áureos, um fenômeno, muitos comentários e tale coisa e coisa e tale. Me chamou a atenção um pequeno e notável detalhe, o que este tal de AVATAR tá dizendo para um Curumim criado desnudo, tomando açaí na beira do Madeira????

Madeira que, aliás, está quase caindo – mas essa é outra prosa. Então, quando me dei conta, eis que estava no centro da sala escura à procura ainda de saber o que é ser AVATAR? Que será? Sentei-me e me deixei levar, até que adentrei em PANDORA (“a que tudo dá”, “a que tudo possui”, segundo a tal da mitologia) e contraditoriamente ou analogamente, depende de seu ponto de vista, leitor, ferozes e sagazes CAPITALISTAS, até sua última base nitrogenada, que possuem como “meta maior” a busca por um valioso minério, o unobtainium, na linda e abastada Pandora, que possui nativos com alta interligação com o mundo natural. Logo, vivem daquilo, dependem, amam, são parte de uma rede de energia. Porém, como o Capital não possui muita sensibilidade, e, como diz um mestre, “onde o Capital não vai é porque o dinheiro é pouco”, e nesse caso o dinheiro é, vamos dizer assim, ABISMAL; os sedentos pela riqueza contratam cientistas, soldados, enfim, e o que for preciso para obter a tal riqueza. Bom, minha gente, acho que a sinopse tá boa, mas parei.

O fato é que tudo é muito lindo, efeitos são legais etc, Contudo AVATAR é um tiro muito bem dado, ou melhor, um AVISO estampado na primeira página, ou melhor, nos cinemas de todo o mundo dizendo o seguinte: Caro AMAZÔNIDA, caro portovelhense, caro Curumim na beira do Madeira ou manauara ou tupiniquim ou pataxó ou karipuna, uruê-au-au, tuxaua, acreanos, pantaneiros, enfim, POVOS DA FLORESTA, a POROROCA VAI PRO BREJO, ou seja, o mundo está se esgotando, no limite estamos chegando. Vocês possuem o “unobtainium”, vocês têm o que será de mais valioso: o verde, o natural, o ar puro, e nós, como verdadeiros pedigrees sanguessugas CAPITALISTAS, não iremos negar fogo, não iremos medir esforços quando a hora chegar. Tudo fica bem mais explícito quando em uma das cenas o ex-fuzileiro Jake Sully, com seu corpo de AVATAR, porém a MENTE, olhe bem, meu caro, a MENTE é deles. De quem???? Dos imperialistas… Tal Jake Sully, que possui a priori a missão de conhecer os costumes princípios e valores dos nativos para informar aos capitalistas como “melhor” agir para surrupiar a tal riqueza, ele acaba se transladando, quando adentra de fato na tribo e muda sua concepção a ponto de querer defendê-los.

E o ponto mais importante: ele vira o LÍDER dos NAVI, uma pequena OBS bem Aqui. Jake Sully, um ex-fuzileiro, possui Corpo de NAVI, mas a CABEÇA é deles) logo apenas eles são capazes de comandar os NAVI para tentar vencer os ferrenhos capitalistas. Pergunto: quem são eles?? Os Imperialistas. E quem são os Navi? É aquele Menino Aluado que vê banzeiro de rio, representando a Nação Tupiniquim que “NÃO TERIA CAPACIDADE DE PENSAR SOZINHA”, precisando um ex-fuzileiro (imperialistas) ser o líder para salvar a alma amazônida. Ah!, meus caros interlocutores, se vocês estão achando que Pelo lançamento do filme ser extremamente recente o tema se vê na mesma situação, é um breve engano seu, pois lhes trago a “Rainha do Neoliberalismo”, Margareth Thatcher, que, se referindo ao Brasil, e mais precisamente à Região amazônica, disse: “Se os países subdesenvolvidos não conseguem pagar dívidas externas, que vendam seus territórios”.

Bom, então há uma grande manifestação de interesse externo, uma vez que a DAMA DE FERRO, como exemplo de uma metonímia, era a parte que enunciava as ideologias do grande todo inglês, de olho grande na imensidão verde-ameríndia, pois o território deles foi devastado com suas revoluções tecnológicas, temperadas com um capitalismo exacerbado. AVATAR apenas vem trazendo o recado novamente com outra linguagem mais deslumbrante, brilhante, tão brilhante que ofusca muitas mentes que se vêem estagnadas a efeitos mirabolantes e deixam de lado seu tacacá, tapioca e pirarucu para adorar o novo, que não é tão novo assim, e tem algo que nessa historia que é muito surpreendente, Esse tal de efeito 3D. Além do efeito visual, ele é capaz de criar uma barreira onde muitos não a transpõem. Hum…. Vou tomar meu açaí com farinha de tapioca, aquele abraço.

Amaral Neto

O adeus a Orlando Pereira, o Sambista da Simplicidade

16/11/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Orlando do Estácio, Neguinho do Triângulo O adeus a Orlando da viola encantada

Sorrateiramente, assim como veio, o artista Orlando Pereira partiu aos 57 anos, quase sem querer, sem muito alarde, e assim foi enterrado no Cemitério dos Inocentes, na tarde de sexta-feira, dia 06 de novembro, dia chuvoso e triste, como se a natureza, sentida, expressasse seu lamento de dor pela perda do sambista. Deixou saudades e levou sua marca principal, a simplicidade; deixou composições e levou consigo o segredo de um suingue invejável, no violão; carregou em seu peito muitas emoções e deixou belas e marcantes páginas de sua presença no palco, iluminando com sua negritude autêntica cantos e recantos da música popular brasileira, como uma pedra rara esquecida à margem dos trilhos da calendária Madeira-Mamoré. Paradoxalmente, o Neguinho Orlando partiu e ficou, ao mesmo tempo, posto que sua obra há de personificar para sempre sua estada na comunidade cultural de Porto Velho.

Ele nasceu Orlando Pereira, do Estácio, mas às margens do pachorrento rio Madeira recebeu a comenda de Neguinho do Triângulo, bairro onde morava e no qual desenvolveu trabalho político-social, sendo lembrado pelos amigos, na hora despedida, essa sua militância como líder comunitário. Como se fosse um caiçara amante das águas, trocou seu Rio de Janeiro pela companhia de um outro rio, o Madeira, com seu botos, lendas e mistérios. Aqui ele conheceu derrotas, vícios, ócios, vitórias, esperança e principalmente um sentido para tocar a vida pra frente. Amou suas parceiras e teve filhos. Talvez por isso morreu sorrindo.

A tarde chuvosa e fria de 06 de novembro serviu de moldura para a partida do Neguinho Orlando. Na saída do caixão da Casa de Cultura Ivan Marrocos, onde transcorreu o velório, ajudavam a segurar as alças laterais da urna funerária o intérprete Jesuá Johnson, o Bubú, e o jornalista e escritor Adaides Batista dos Santos, o Dadá. Era a homenagem secreta do outrora grupo Cabeça de Negro, organização cultural da qual Orlando fez parte, sendo inclusive o criador do nome da entidade. O caixão deixou a Ivan Marrocos sob salva de palmas. Poucas, é verdade. Mas sinceras e sentidas. “Orlando tinha amigos não pelo critério da quantidade, mas sim pelo critério da qualidade” – afirmou um xará do falecido à beira do caixão, na descida do corpo à cova, no Cemitério dos Inocentes.

A tradição manda que o sambista seja enterrado ao som da batida do surdo, executada a cada dois compassos de tempo. No enterro de Orlando do Triângulo, no entanto, os bambas de Porto Velho preferiram entoar sambas de raiz, ao som de cavaquinho, tantã e ganzá, cantando de forma emocionada para o adeus ao Orlando da viola encantada. Partiu, assim, o sambista da simplicidade. Dentre outras pessoas, fizeram-se presentes na última aparição do Neguinho Orlando no show da vida: Ernesto Melo, Sílvio Santos, Mara Valverde, Tácito Pereira, Tatá, Berenice Perpétua, Hugo Evangelista, Moreira, Zé Baixinho, Wadilson, Oscar Night, Bubu, Norman Johnson e Maracanã.

Bubu Nunca Cantou Num Teatro

05/10/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Prisma Luminoso Ao Prisma Luminoso do Banzeiros Bubu canta e encanta

Ao se apresentar na Quinta Cultural patrocinada pelo Banco da Amazônia S/A, o intérprete Jesuá Johnson, filho de uma das mais tradicionais famílias de Porto Velho, confessou em público: “Eu estou muito feliz de estar aqui com vocês; eu nunca cantei num teatro”. E riu, e rir, e ria da sua radical e genuína declaração. E o povo sacou muito bem que o papo era de coração pra coração. Por isso, o público gostou e aplaudiu a sinceridade do artista, exposta a queima-roupa, sem os arranjos do racionalismo. Até porque era mesmo a primeira vez que ele pisava no palco de um teatro, o Teatro Banzeiros, recentemente inaugurado pela prefeitura municipal de Porto Velho. Bubu já passou dos 50 e deve estar próximo aos 60 anos de vida. Criador do lendário Projeto Cinco e Meia e produtor cultural por mais de três décadas, ele agora resolveu ser cantador.

Prisma Luminoso é o nome do seu espetáculo – uma homenagem, supõe-se, ao mestre Paulinho da Viola, que tem um disco com o mesmo nome, conforme sacou o jornalista Zola Xavier da Silveira, em conversa de bastidores, enquanto gravava todo o show para um documentário. Quando sobe ao palco ele se faz acompanhar de Norman Júnior, no violão de seis cordas; Nicodemo, no violão de sete; Genésio, no cavaquinho; e Júnior Lopes, na bateria. Foi com esse time de bambas que ele, dia 24 de setembro passado, como se grego fosse e saltasse do mito para o logus, apresentou-se para uma casa cheia, cheia de gente, cheia de luz e sensibilidade, cheia, enfim, de pessoas felizes por vê-lo ali no palco, reluzindo como uma pérola negra a serviço do belo, da inteligência e da criatividade brasileira. Ana Aranda, sua mulher, Mayela e Verinha, seus rebentos, de certo foram, no seu íntimo, os homenageados daquela noite.

Como se fosse um babalorixá do terreiro do Samburucu ou Santa Bárbara, entoando canto inicial da ritualística de umbanda, ele homenageou seus antepassados e todos os mortos representados em cada dormente da Ferrovia do Diabo, e cantou pausada, solenemente e em capela: Você Precisa Ver/Para Saber Como É/Que andava o Trem na Madeira-Mamoré! Conquistado o coração da platéia com essa abertura, ele saltou do trem e correu trecho até chegar ao bairro do areal para contar um pouco das travessuras de um certo “moleque atrevido, pior que bandido, que se criou no areal”. Desfolhando os versos do poeta Dadá, ele confessou à galera que “assistiu a destruição da Baixa da União pelos Generais”, entrelaçando aos acordes as sacadas críticas e a visão histórica do autor de A Sobra das Noites. Do passeio pelo samba crítico dos compositores Guaporés ele foi ter com os grandes mestres da chamada música popular brasileira. Cantou Noel, Paulinho da Viola e Chico Buarque. Cantou Elton Medeiros, Ney Lopes, Cartola e Nelson Cavaquinho, e tantas outras páginas antológicas da musicalidade tupiniquim.

Bubu, o Cristo Negro, cujo nome de batismo “Jesuá” deriva, segundo alguns pesquisadores, da forma “Yeshua”, em aramaico, e quer dizer Jesus, realmente nunca foi cantor de teatro. Ele sempre foi cantador de boteco, puxador de samba de botequim, sussurrador de bossa-nova em clubes da esquina e contador de prosa em mesa de bar, lugar onde o homem é mais sincero, no dizer do jornalista e aprendiz de filósofo Paulo Queiroz. Como homem negro e descendente direto de barbadianos, nascido da união de Norman e Elvira Johnson, ele deve ter ouvido suas primeiras cantorias de ninar na língua de William Shakespeare. Teria nascido para ser jogador de basquete – sua grande prática esportiva quando moço -, mas um anjo safado, um chato de um querubim sussurrou no seu ouvido coisas que ele só entenderia mais tarde, tomando a saideira com Dadá e Flávio Carneiro no oitavo botequim. Ouvidor de Milton Nascimento e James Brow, Paulinho da Viola e Cartola, teve sua musicalidade forjada e construída nos bares da vida. Quando adquiriu consciência política da problemática social da gente de Zumbi, fez sua própria cabeça de negro e foi à luta, militar nos movimentos da causa da raça negra. De bar em bar, na convivência com notívagos, com poetas e com a música jorrando ao vivo, nua crua, sem efeitos de estúdio nem reverberações acústicas e tecnológicas, Bubu fez escola de canto na boêmia e foi nela que aprendeu a modular a voz, a imprimir ritmo e movimento ao frasal cantado; a conceber emoção, admiração e fantasia ao mais simples enunciado de um samba acompanhado em caixa de fósforo. A noite lhe serviu de conservatório. Aprendeu com Noel que o samba não vem do morro nem lá da cidade. Da Bossa-Nova ele incorporou a malícia de fazer de conta que está cantando, quando na verdade está apenas confidenciando baixinho, em sussurro, suas mágoas de amor. Tomando uma aqui, outra ali no bar da esquina, ele entregou seu coração à arte do canto, que construiu ninho em sua alma e impregnou todo seu ser, transformando-o num cantante nada técnico, nada convencional, mas extremamente sensível, intuitivo e bêbado de paixão por um lugar ao sol à mesa do melhor da música popular brasileira.

Bubu definitivamente não nasceu para cantar. Mas ao entregar sua alma aos rituais de magia em noites de lua cheia, em meio aos homens vazios que enchem os bares do mundo de vida e espiritualidade, quando a cidade dorme, passou a cantar como quem precisa respirar para viver. Elegeu o coração, e não a boca seu principal instrumento vocal. Luminosa fez-se sua alma. Sedento de verdade é seu espírito, na canção. Cantou e encantou a todos, sem nunca ter cantando num teatro. É messiânico ao cantar, lançando bênçãos de bem-aventurança sobre si e para os que o ouvem. Cantando, o Cristo Negro, por sessenta minutos, tem o dom de perdoar todos os pecados do mundo. O único pecado original permitido é o de invocar os deuses brancos e negros da poesia. Por isso essa sua força estranha.

Livro Pode Ajudar a Curar a Cegueira do Nosso Olhar

21/09/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Cobra Um Olhar Sobre a Arte de Júlio Carvalho

O artista plástico Júlio César de Carvalho lançou recentemente a obra “Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho”. Com encadernação de primeira qualidade e objetivo não menos nobre, o livro traz a proposta de passar em revista uma das mais expressivas formas de cultura do homo sapiens: a concepção arquitetônica com suas formas, materiais, volumes, cores, estilos, ângulos, funções e serventia social. A obra não se prende a mostragem saudosista das edificações, cantos e recantos porto-velhenses. Trata-se na verdade de uma instigante leitura do autor sobre a formatação urbana que se desencadeou à margem do Madeira, desde o nascimento da cidade até hoje.

O trabalho foi lançado no Mercado Cultural, em solenidade timidamente divulgada e pouco prestigiada pelas autoridades constituídas, e chega ao público em meio ao imbróglio e ao caos urbano em que a cidade está atolada. Daí a oportuna sacada do autor em lançar Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho – um inventário histórico, plástico, revelador das nossas facetas geométricas e dos estilos das nossas construções, suas tendências, influências e expressões estéticas no espaço e no tempo.

Um olho na obra de Júlio Carvalho, outro na realidade, vê-se que Porto Velho está irreconhecível. Proporcionalmente, é campeã brasileira de homicídios, de acidentes no trânsito e violência urbana. O povo vive com a tensão à flor da pele, numa situação bem diferenciada daquela descrita em muitas fotos contidas no livro em que Júlio revela uma Porto Velho que não conhecia a palavra estresse, a vida fluía calmamente e as relações tinham mais profundidade e conteúdo. Na foto, a imagem tem o poder de congelar esse tempo bom, para espanto dos incrédulos e orgasmo dos saudosistas.

A construção civil se impõe como principal elemento propulsor da nossa atmosfera urbana. A plástica urbanística da cidade parece o samba do crioulo doido, metamorfoseando-se subitamente como se o mundo fosse acabar amanhã. E nós, como diz o livro de Carvalho, “silenciamos diante do ‘assassinato’ da memória coletiva mais expressiva e visível que é a arquitetura, uma linguagem tão universal que traduz, com grande exatidão, a idéia de uma época e a visão de seu passado.” O choque entre Capital e Trabalho já produz seus primeiros efeitos, e a greve, que antes, na economia do contra-cheque, era feita somente na seara da administração pública, agora eclode como uma explosão atlântica no centro da urbe, quebrando um pouco da monotonia e da cumplicidade em torno dos rumos sociais, econômicos e culturais que o agronegócio e o governo federal nos empurram. Porto Velho é um efervescente canteiro de obras. Os prédios brotam da noite pro dia, emergindo do solo pacto como uma safra surrealista de espigões recheados de ferro e argamassa, manipulados por homens que trabalham feito máquinas tentando executar um desenho lógico à guisa de atender aos interesses do mercado imobiliário – o mais inflacionado do país. Foi-se o tempo em que Raquel Cândido comandava hordas de deserdados e excluídos na promoção de invasões e construção de Caladinhos e outras periferias. Uns dizem que é o fim do mundo. Outros dizem que o progresso chegou, e outros, ainda, denunciam que isso não é desenvolvimento nem aqui nem na conchichina. É burla, circo e falácia. Enquanto os barões da burguesia paulista sonham noite e dia com a chegada da energia do Madeira em seus parques industriais, a nossa medíocre classe política se contenta com as migalhas dos royalties. A visão do povo que antes era praticada horizontalmente agora se espraia verticalmente içada por força da nova angulação urbanística. O olhar proposto na obra de Carvalho não se prende ao senso-comum da descrição pedagógica e iconográfica do conjunto de edificações que foram erguidas nestas paragens desde a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré aos dias de hoje. Os cutubas e pele-curtas sem dúvida sentirão saudades quando se depararem com as cenas protagonizadas por Aluízio Pinheiro Ferreira e Renato Clímaco Borralho de Medeiros – seus líderes. Em suas 178 páginas o livro até cumpre o inevitável mister de ser didático, mas não é só isso, pois também é analítico, dotado de excelente textos e acervo fotográfico de incomensurável valor cultural, e até poderia ser mais crítico, poderia por exemplo se utilizar da voz de autoridade no assunto e ser mais incisivo na defesa do patrimônio histórico, denunciando os crimes de lesa-patrimônio perpetrados por governantes das esferas federal, estadual e municipal – já que Júlio Carvalho entende que “o patrimônio arquitetônico de uma cidade é um capital espiritual, cultural, econômico e social de valores insubstituíveis”.

Dentre outros ângulos e retângulos conceituais, aprendemos com a obra de Júlio Carvalho que as Três Caixas D’água que se postam altivas na praça são testemunhas da influência da Revolução Industrial entre nós. No mesmo diapasão, temos os galpões e o girador da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O ecletismo dos estilos Arte Déco e Art Nouveau conviveram e convivem com a intuição plástica que o beradeiro aplica às suas edificações de paxiúba e pau-a-pique. O livro sugere, enfim, que, em meio as nuances de barroquismo, neoclassicismo e estilo romano, dentre outros, somos a civilização guaporé marchando e plasmando nossas edificações com anseio de dignidade que repercute da alma cabocla e sede de justiça social que nos salta aos olhos. Em sendo criticamente interpretado, o livro de Júlio Carvalho pode ajudar a curar a cegueira que às vezes toma de assalto nosso olhar sobre a cidade. Com ele, o autor presenteia e sacode o município de Porto Velho por seus 95 anos de idade. Parabéns pra nós.

O artista plástico Júlio César de Carvalho lançou recentemente a obra “Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho”. Com encadernação de primeira qualidade e objetivo não menos nobre, o livro traz a proposta de passar em revista uma das mais expressivas formas de cultura do homo sapiens: a concepção arquitetônica com suas formas, materiais, volumes, cores, estilos, ângulos, funções e serventia social. A obra não se prende a mostragem saudosista das edificações, cantos e recantos porto-velhenses. Trata-se na verdade de uma instigante leitura do autor sobre a formatação urbana que se desencadeou à margem do Madeira, desde o nascimento da cidade até hoje.

O trabalho foi lançado no Mercado Cultural, em solenidade timidamente divulgada e pouco prestigiada pelas autoridades constituídas, e chega ao público em meio ao imbróglio e ao caos urbano em que a cidade está atolada. Daí a oportuna sacada do autor em lançar Um Olhar Sobre o Urbanismo e a Arquitetura de Porto Velho – um inventário histórico, plástico, revelador das nossas facetas geométricas e dos estilos das nossas construções, suas tendências, influências e expressões estéticas no espaço e no tempo.

Um olho na obra de Júlio Carvalho, outro na realidade, vê-se que Porto Velho está irreconhecível. Proporcionalmente, é campeã brasileira de homicídios, de acidentes no trânsito e violência urbana. O povo vive com a tensão à flor da pele, numa situação bem diferenciada daquela descrita em muitas fotos contidas no livro em que Júlio revela uma Porto Velho que não conhecia a palavra estresse, a vida fluía calmamente e as relações tinham mais profundidade e conteúdo. Na foto, a imagem tem o poder de congelar esse tempo bom, para espanto dos incrédulos e orgasmo dos saudosistas.

A construção civil se impõe como principal elemento propulsor da nossa atmosfera urbana. A plástica urbanística da cidade parece o samba do crioulo doido, metamorfoseando-se subitamente como se o mundo fosse acabar amanhã. E nós, como diz o livro de Carvalho, “silenciamos diante do ‘assassinato’ da memória coletiva mais expressiva e visível que é a arquitetura, uma linguagem tão universal que traduz, com grande exatidão, a idéia de uma época e a visão de seu passado.” O choque entre Capital e Trabalho já produz seus primeiros efeitos, e a greve, que antes, na economia do contra-cheque, era feita somente na seara da administração pública, agora eclode como uma explosão atlântica no centro da urbe, quebrando um pouco da monotonia e da cumplicidade em torno dos rumos sociais, econômicos e culturais que o agronegócio e o governo federal nos empurram. Porto Velho é um efervescente canteiro de obras. Os prédios brotam da noite pro dia, emergindo do solo pacto como uma safra surrealista de espigões recheados de ferro e argamassa, manipulados por homens que trabalham feito máquinas tentando executar um desenho lógico à guisa de atender aos interesses do mercado imobiliário – o mais inflacionado do país. Foi-se o tempo em que Raquel Cândido comandava hordas de deserdados e excluídos na promoção de invasões e construção de Caladinhos e outras periferias. Uns dizem que é o fim do mundo. Outros dizem que o progresso chegou, e outros, ainda, denunciam que isso não é desenvolvimento nem aqui nem na conchichina. É burla, circo e falácia. Enquanto os barões da burguesia paulista sonham noite e dia com a chegada da energia do Madeira em seus parques industriais, a nossa medíocre classe política se contenta com as migalhas dos royalties. A visão do povo que antes era praticada horizontalmente agora se espraia verticalmente içada por força da nova angulação urbanística. O olhar proposto na obra de Carvalho não se prende ao senso-comum da descrição pedagógica e iconográfica do conjunto de edificações que foram erguidas nestas paragens desde a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré aos dias de hoje. Os cutubas e pele-curtas sem dúvida sentirão saudades quando se depararem com as cenas protagonizadas por Aluízio Pinheiro Ferreira e Renato Clímaco Borralho de Medeiros – seus líderes. Em suas 178 páginas o livro até cumpre o inevitável mister de ser didático, mas não é só isso, pois também é analítico, dotado de excelente textos e acervo fotográfico de incomensurável valor cultural, e até poderia ser mais crítico, poderia por exemplo se utilizar da voz de autoridade no assunto e ser mais incisivo na defesa do patrimônio histórico, denunciando os crimes de lesa-patrimônio perpetrados por governantes das esferas federal, estadual e municipal – já que Júlio Carvalho entende que “o patrimônio arquitetônico de uma cidade é um capital espiritual, cultural, econômico e social de valores insubstituíveis”.

Dentre outros ângulos e retângulos conceituais, aprendemos com a obra de Júlio Carvalho que as Três Caixas D’água que se postam altivas na praça são testemunhas da influência da Revolução Industrial entre nós. No mesmo diapasão, temos os galpões e o girador da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. O ecletismo dos estilos Arte Déco e Art Nouveau conviveram e convivem com a intuição plástica que o beradeiro aplica às suas edificações de paxiúba e pau-a-pique. O livro sugere, enfim, que, em meio as nuances de barroquismo, neoclassicismo e estilo romano, dentre outros, somos a civilização guaporé marchando e plasmando nossas edificações com anseio de dignidade que repercute da alma cabocla e sede de justiça social que nos salta aos olhos. Em sendo criticamente interpretado, o livro de Júlio Carvalho pode ajudar a curar a cegueira que às vezes toma de assalto nosso olhar sobre a cidade. Com ele, o autor presenteia e sacode o município de Porto Velho por seus 95 anos de idade. Parabéns pra nós.

UM DOS ÚLTIMOS GRANDES COMUNISTAS HABITA ENTRE NÓS

30/08/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

consultor da ONU e professor de Sociologia na UNIR

Clodomir Santos de Morais, um dos últimos grandes comunistas da safra de sonhadores e militantes de esquerda do país, vive hoje em Porto Velho. Aos 81 anos, o ex-homem forte do Partido Comunista Brasileiro junto às Ligas Camponesas é hoje um pacato consultor da ONU e professor de Sociologia na Universidade Federal de Rondônia. Com ele aprendemos, no seu “Dicionário de Reforma Agrária”, que greve, no Brasil, significa uma forma de luta do proletariado, e que, na hispano-américa, além da “huelga”, a clássica paralisação do trabalho, existe ainda a “huelga de brazos caídos”, que é a paralisação de corpo presente na empresa; “huelga de tortuga”, o trabalho desenvolvido em ritmo lento; a “huelga econômica”, a luta por ganhos salariais; a “huelga general”, que abrange todas as categorias de trabalhadores, e muitas outros tipos de “huelga”.

Comunista de alto calado e combatente de nobre estirpe, com direito a curso de guerrilha feito em Cuba, o Doutor Clodomir é um nordestino nascido em Santa Maria da Vitória, Bahia, terra que muito cedo lhe deu régua e compasso para que ele, ainda muito jovem, iniciasse sua perambulância pelo mudo afora. Foi, por exemplo, Conselheiro Regional da ONU para a América Latina em Assuntos de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural. Monstro sagrado da esquerda nacional, formou-se em Direito no Recife e fez doutorado em Sociologia da Organização na Alemanha. Além disso, tem no seu currículo o registro de especialista em Antropologia Cultural, professor conferencista nas Universidades de Berlim (Alemanha), Winsconsin (Estados Unidos) e em várias universidades mexicanas, como também em universidades de países da América Latina; foi pesquisador da UNCTAD, Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, consultor do PRONAGER – Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda e é autor de 20 livros, sendo alguns deles traduzidos em vários idiomas, e tem ainda outras 33 publicações em jornais, diários e periódicos.

Humanista de boa cepa, o professor Clodomir escolheu o socialismo como sua bandeira de vida e de morte. O comunismo é sua utopia predileta, da qual ele não nunca abriu mão, nem mesmo nos momentos em que foi preso e torturado. O Muro de Berlim caiu. Mas sua meta política continua de pé. Ultimamente ele tem peregrinado, doente, por quartos de hospitais em Porto Velho, mas sem perder a ternura jamais, pois assim que tem um surto de melhora pode ser encontrado prestando assessoria a organismos da ONU, ou simplesmente fazendo palestra ou ministrando cursos em países da América do Norte, Central ou Europa. Semear esperança é hoje sua principal atividade social.

O velho comunista é um militante jurássico, daqueles exemplares que hoje se conta nos dedos das mãos, remontando a época em que o mundo se equilibrava na corda bamba estendida entre dois blocos hegemônicos: o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos da América, e o bloco socialista, encabeçado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Durante a Ditadura Militar que se instalou no país a partir de março de 1964, ele atuou, ao lado do lendário Francisco Julião, nas chamadas Ligas Camponesas, organização política do campesinato nordestino que teve origem na década de 1940 e que, na sua formação, contou com a participação de vários membros do PCB. À revelia de Julião, ele fez opção pela luta armada no campo, como instrumento da ação revolucionária – talvez por esse motivo tenha sido perseguido pela polícia ideológica e expulso do Partidão em 1962. Todavia, como se sabe e como apostou o bruxo Golbery do Couto e Silva, não houve resistência ao golpe de 64, o governo de João Goulart caiu, como cai um castelo de areia à beira da praia e o poder foi parar nas mãos dos generais-presidentes. Clodomir tem no seu currículo um mandato de deputado pernambucano pelo PCB, claro. Esteve preso com o famoso educador Paulo Freire (*) que lhe dirigiu carta dizendo, dentre outras coisas: “amigo-irmão, velho de guerra, que me ensinou, com paciência, como viver entre paredes, como falar, com coronéis, jamais dizendo um aliás, que me ensinou a humildade, não só a mim, também aos outros que lá estavam, na prisão”. Além de ter ficado preso durante dois anos, amargou também 15 anos de exílio. Durante o período em que esteve preso, escreveu alguns contos, entre eles “Causos de Sentinela”, “Pedro Bunda”, “O Ladrão da Calça de Casimira” e “Mestre Ambrósio”. No ano passado esteve em Brasília para ser agraciado com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, na categoria à Pobreza.

O produtor do documentário “Caçambada Cutuba”, jornalista Zola Xavier, juntamente com sua companheira Myriam Queiroz, vem fazendo uma série de entrevistas com o professor Clodomir Morais com o objetivo de futuramente disponibilizar o material cenográfico para o Museu da Memória Política que será construído em breve na capital. No leito do hospital Prontocor, ao dar entrevista a Zola, um par de olhos brilhava, fitando com orgulho o entrevistado. Era Jacinta Castelo Branco, trinta anos mais nova que o lúcido combatente, esposa e fiel escudeira de Clodomir, que não esconde a admiração e o amor que tem pelo seu companheiro de longas jornadas. Mestra em comunicação social e doutora em ciências Agrárias/Comunicação Rural pela Universidade Autônoma de Chapingo, no México, ela é professora de Português na Faro e revisora de textos da Universidade Federal de Rondônia.

Tendo iniciado muito cedo sua militância, já em 1954 Clodomir fazia seu primeiro curso, denominado “Stalin”, um preparo de formação para militantes do Partido Comunista Brasileiro. Desde então se apaixonou pelo sonho de ver construída, no Brasil, uma sociedade livre, justa e solidária. Político no sentido radical, ele, apesar da idade avançada, 81 anos, dedica sua inteligência, sabedoria e conhecimentos às causas da pólis, tentando atingir seu elemento mais importante: o homem. Um humanista jurássico dessa magnitude é uma pérola perdida em meio ao vendaval de falácias, picaretagens e planos fanfarrônicos postos em práticas hoje nesta Rondônia escalada para ser boi de piranha do capitalismo nacional. Como diria Jacob Bazarian, se os poucos que sabem muito não ensinarem os muitos que sabem pouco, então todos nós poderemos ser vítimas da ignorância e da servidão.

Assistir um velho combatente do naipe de Clodomir Morais dar entrevista em leito de hospital, falando como quem sabe faz a hora e não espera acontecer, é ver a história falando por si só e reatando seu antigo compromisso com a vida. John Lennon que me desculpe, mas, vendo e ouvindo ao vivo e em cores o professor Clodomir Morais falar, concluo o óbvio: o sonho não acabou, porque um dos últimos Grandes Comunistas habita entre nós.

CABARÉ TAMBÉM É CULTURA

23/08/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Bons tempos em que a velha arte não se dava a céu aberto

Antes de morrer, Esron Meneses disse que Aluízio Ferreira, o maior cacique político da história de Rondônia, era também o maior caçador de rabo de saia destas paragens. Contava Dionísio Xavier da Silveira, o Velho Dió, que certa vez um navio atracou em uma de nossas barrancas carregado de prostitutas e que o desembarque das meninas fora embargado pelo delegado de polícia, a pedido de uma alta autoridade eclesiástica católica, em nome da moral e dos bons costumes. O sexo, tanto quanto o poder, move e comove o mundo. Sexo e poder se movem conjuntamente desde que o mundo é mundo. Assim como existem operários que fazem funcionar as máquinas da produção de riqueza, para se fazer funcionar a máquina operacional da fábrica de prazeres, precisa-se de operárias do sexo. A mais famosa delas, Maria de Madala, ou Maria Madalena, a pecadora, teve a graça de receber, em momentos de apuros, a intervenção pessoal do próprio filho de Deus, o Cristo Nazareno, Rei dos Judeus. Ora, se até o filho do Altíssimo saiu em defesa das damas da noite, quem iria impedir que elas chegassem por estas paragens nos idos de antanho?

Assim, pois, tivemos por aqui, como muito bem relata o articulista Anísio Gorayeb, as nossas famosas casas de prostituição, administradas pela tríade Maria Eunice, Tartaruga e Anita. Cabaré também é cultura. Prostituição é fenômeno social. E dá uma fora de casa de vez em quando é típico do caráter do homem brasileiro, desde que Cabral chegou aqui e os lusitanos, de quem herdamos uma boa dose de lirismo, além da sífilis, se apaixonaram pelas ancas, coxas, peitos e bundas das nossas índias saradas. Com a chegada das negras vindas do Congo, Angola e Moçambique a salada sexual ganhou aditivos ainda mais apimentados, pois é dessa intensa mistura que vai sair o protótipo sexual da mulher brasileira: a mulata boa de samba, boa de cama e parideira – um luxo só, como diria Ary Barroso.

À medida que eclodia o processo civilizatório, baseado na miscigenação dos elementos branco, índio e negro, crescia também o gosto brasileiro pela boêmia e pelo sexo fora de casa. O cinismo moral contraria, claro, os preceitos de nossa tradição cristã, mas, convenhamos, ele é tão brasileiro quanto a feijoada ou o samba, e aquele tem um papel social tão importante quanto estes. Como bons filhos de ciclos migratórios, nós recebemos garotas de programas dos mais diversos rincões do território brasileiro. A Maria Eunice, por exemplo, se não me engano, importava suas moçoilas do Estado do Pará e Amazonas. Outras agenciadoras, como Tartaruga e Anita, traziam suas damas da noite de Cuiabá e Acre. Hoje elas vêm até do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Daí a enxurrada de loirinhas circulando no Baco, Casa das Sete Mulheres e Enigma. No contra-ponto da dimensão social, tínhamos os clubes socytes da época, nomeados por Anisinho: Bancréveas, Ypiranga e Danúbio Azul Bailante Clube. Tanto esses clubes quantos aquelas casas famosas eram, na verdade, facetas opostas, mas paradoxalmente complementares, da mesma moeda. O homem que freqüentava aqueles ambientes chiques era o mesmo que circulava, talvez até com mais intimidade, prazer e eloqüência, nos corredores das casas noturnas, de modo que a razão de existir da tradição, da família e da propriedade coincide e se justapõe na mesma proporção à razão de existir das casas de prostituição: ambas, cada uma a seu modo, desempenham funções orgânicas e sociais, para a mantença mais ou menos harmoniosa da sociedade dos homens. Se no clube social o homem dançava com a esposa, no cabaré ele dançava com a rapariga, para o deleite do seu espírito libertino e sedento de fantasias. Mas não era só isso. Ir ao bordel significava também conviver, desfrutar de um modo de vida, cultivar um círculo de amizades e se relacionar com mulheres que não serviam só para a satisfação sexual, mas desempenhavam também o papel de confidentes, conselheiras, amigas, confidentes e amantes, no mais profundo sentido do termo.

O texto de Anísio revela claramente a vivência dualista e liberal desses papéis pelos nossos seringalistas, políticos, profissionais liberais, funcionários públicos etc. Essa é a função do memorialismo, oferecer material contextual à crítica e à análise sociológica do fenômeno. É claro que na levada da leitura emerge uma boa dose de nostalgismo, até porque também tive meu batismo de guerra no quartel-general de Maria Eunice, na rua Dom Pedro II, aos 13 anos, quando, levados por amigos do velho Serpa do Amaral, pisei pela primeira vez naquela casa famosa e misteriosa para os infantes da época, sendo recepcionado pela própria Maria Eunice, que se mostrou agradável, respeitável, educada e simpática anfitriã. Foi à tarde, quando as mariposas ainda se preparavam para a longa jornada da noite. Pelo figurino da etiqueta social, como filho da classe média, a minha iniciação sexual deveria ser mesmo num bordel, à conta de não haver em casa uma empregada que pudesse desempenhar à altura tal mister. No entanto, apesar da lembrança pessoal, o foco principal é o contexto reconstruído pelo articulista. Dele emanam uma série de elementos que perfaziam a realidade circundante da Porto Velho provinciana do final dos anos 50. Esses elementos, embora invoquem certo espírito pitoresco na abordagem do tema, devem servir para que tenhamos uma compreensão da vida enquanto processo histórico. Não basta lembrar da belíssima Cabaço de Aço (Raimundinha) e da Paquinha, mitos sexuais de antigamente. O desafio é compreender a sociedade de ontem, entender a Porto Velho de hoje e vislumbrar a cidade humanizada que queremos edificar no futuro.

Ao cavoucar no baú de suas lembranças, o articulista Anísio Gorayeb não quer ser apenas pitoresco ou engraçado, nostálgico ou saudosista, ele deve querer principalmente remontar arqueologicamente as contextualidades que compunham o cenário urbano daquela Porto Velho em que as principais cafetinas eram conhecidas de toda a população pelo nome e sobrenome e até, como bem testemunha o caso da Tartaruga, recebiam tratamento dispensado às mulheres da alta sociedade – “Madame Elvira”, assim era tratada a popular Tartaruga no convívio social. Reviver a estória dos velhos cabarés é mergulhar nas entranhas dos nossos costumes e práticas sociais mais delicadas, visto que, se nosso maior herói, Macunaíma, nunca teve caráter, o sem-caratismo tupiniquim é a marca do pecado, suado, rasgado, praticado debaixo da linha do equador, nas madrugadas infindas em que as meninas da Maria Eunice, Tartaruga e Anita recebiam homens das diversas classes sociais para a prática do ritual da vida. Por mais que se torça o pudico nariz, é elementar: cabaré também é cultura!

Trova de Reis no Teatro Banzeiros

04/08/2009

por Antônio Serpa do Amaral Filho

Silvio Santos, Ernesto Melo e Mestre Bainha no Mercado Cultural

Foi uma trova de Reis, com pompa e circunstância. Sílvio Santos, Ernesto Melo e Bainha levaram ontem (30.07), ao palco do Teatro Municipal Banzeiros, no centro de Porto Velho, o espetáculo musical “Trinca de Reis”, patrocinado pelo projeto Quinta Cultural, do Banco da Amazônia/Basa, e operacionalizado pela Fundação Cultural Iaripuna.

Se verdadeiro o adágio popular que diz que “quem foi rei sempre é majestade”, então não há como negar: os sambistas são mesmo os três reis magos da cultura popular de Rondônia. Seus colegas e antepassados, Baltasar, Melquior e Gaspar levaram ouro, incenso e mirra ao Cristo Menino. Sílvio Santos, Ernesto Melo e Bainha, reis beradeiros, sem castelo e sem coroa, ofereceram, sem nenhuma modéstia emocional, seus corações à cidade de Porto Velho. No descortino do repertório que apresentaram, ficou claro que eles aprenderam com Noel Rosa que o samba, na realidade, não vem do morro nem lá da cidade, mas nasce dentro do coração, tendo nascido para os reis tupiniquins nas noites eternas, do Triângulo ao Kilômetro Um, do Caiari ao Santa Bárbara, quando todos eles, ainda muito jovens, andavam a tira colo com Jorge Andrade, Paulo Santos, Wálter Bártolo, Manga Rosa, Nego Velho e Sabará. São reis menestréis, de origem plebéia, vassalos da lua até altas madrugadas, servos da emoção e filhos da noite de uma provinciana Porto Velho que na década de 60 só ia até a rua Presidente Kennedy, hoje Avenida Governador Jorge Teixeira. Juntos, em uníssono diapasão, falam de um tempo em que eram felizes e não sabiam.

Sílvio Santos abriu a mostra musical do reinado homenageando a Banda do Vai Quem Quer, o maior bloco carnavalesco da Amazônia Ocidental. Beradeiro de São Carlos, mas apaixonado pela sua cidade de criação, ele viajou nas asas das calendas de antanho e pinçou poeticamente para a platéia um bico de pena de uma cidade do porto em que, na beira do rio Madeira, ao invés de canoas, já surgiam chatas, navios cargueiros de alto calado.

Acompanhado por nove excelentes músicos, ele passou pelo bairro Caiari (Catega Caiari – 1995), mostrando porque é considerado um dos nossos melhores compositores de samba. Em Trem Fluvial, sapateou xote e balanceou xaxado, deixando claro que nós recebemos do sangue nordestino uma boa dose de lirismo e gosto pela folia. Amo de boi que não dá colher de chá para o terreiro do contrário, investiu-se da patente de Amo do Corre Campo, conquistada ao longo dos seus 50 anos de carreira na tropa do batalhão cultural, e serviu uma belíssima toada à moda da casa. Com a batida rítmica de Parintins, é verdade, porém bem posta e temperadamente compassada. Nostálgico, lembrou de Babá, sambista já falecido, com que compôs várias canções, das viagens de trem para Jaci-Paraná, Abunã e Guajará-Mirim pelas lendárias composições da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, e em seguida abriu alas para a performance do mestre Bainha.

Bainha, que de batismo recebeu o nome de Waldemir Pinheiro da Silva, nasceu no Forte Príncipe da Beira e se criou onde ele mesmo diz, “eu sou da 7 de Setembro/lá do Kilômetro Um/terra de gente bamba/de muita mulher, futebol e samba”, também iniciou seu reinado musical rendendo tributo à Banda do Vai Quem Quer, ao Galo da Meia Noite, cordão carnavalesco para o qual fez várias marchas, ao seu bairro e ao saudoso Babá (Sebastião Araújo da Silva). Bainha, filho de Dona Marieta, é o mais velhos dos reis: 7.0 (e, em agosto deste ano, mais precisamente dia 11, completará 71 anos de idade e robusta majestade). No palco, com uma boa dose de negritude nas veias, o decano dos sambistas rondonienses não contou conversa fiada, chamou a cozinha à ordem e entoou alguns dos seus melhores sambas, parando apenas para chamar um outro rei ao palco: Ernesto Melo, o sambista do Mocambo.

Foi dele o momento de maior emoção da noite. Feito menino, chorou no palco, durante sua apresentação, emocionado com sua própria obra: Porto Velho Meu Dengo, samba vencedor do Festival Aberto de Música do Sesc. Comovido com as lágrimas do poeta da cidade, o público imediatamente o socorreu e passou a cantar aquele samba, como se o show fosse da platéia para o criador da peça musical vitoriosa e ufanista.

Os reis têm saudade. Mas o que parece senti-la com maior intensidade, a ponto de preferir quase sempre o tom menor, com sua inexorável atmosfera de nostalgia, é o compositor e intérprete Ernesto Melo. Sua moldura rítmica e melódica, antes de se colocar pura e simplesmente a serviço da alegria e da descontração, serve, sim, de guia turístico numa viagem ao túnel do tempo, onde habitam pessoas, fatos e lugares de uma época pretérita, que, no discurso poético do artista, são declaradamente nomeados para que o povo não esqueça seus personagens, sua memória e suas marcas existenciais cravadas no tempo histórico. Não se esqueça, por exemplo, que o Morro do Querosene veio abaixo e hoje não tem Baixa da União por ação do 5º BEC (Batalhão de Engenharia e Construção). “Se o tempo da boemia passou, quero que passe o tempo dos generais”, disse ele exorcizando o fantasma da Ditadura Militar que se instaurou no Brasil em março de 1964. Para Ernesto Melo, lembrar é preciso, viver não é preciso. Daí a longa lista de nomes de pessoas que emergem das suas criações, bem como os sítios nostálgicos (Bancrévea Clube, Ypiranga, Clube Imperial, Bar do Zizi, Bar do Casemiro, Praça Marechal Rondon e tantos outros) com os quais ele entrelaça a saudade que tem de um tempo que não volta mais, lamentos, suspiros, amores, costumes, lembranças, paixões, perda e ganhos, bares e boêmios, alegrias e tristezas, passado e presente, como se dentro do poeta morasse um bêbado e um equilibrista querendo andar na mesma corda bamba. São as antíteses barrocas da música popular karipuna!

No olho do furacão da sua página histórica mais caótica e decisiva, Rondônia precisa colocar esses reis não apenas no palco iluminado, mas principalmente na estrada da vida para que eles visitem e cantem em todos os recantos deste Estado e sirvam ao povo o melhor que têm dentro de si: um vendaval de paixão e amor pelas coisas de sua gente. Salve Bainha, Ernesto Melo e Sílvio Santos, os Reis Trovadores de Porto Velho!


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